O Portugal de Lés-a-Lés é uma aventura anual mototurística que desde 1999 concilia a resistência física à vertente turística com o objectivo de cruzar Portugal de extremo a extremo contemplando paisagens e lugares de enorme esplendor. Aquela que se tornou a maior caravana mototurística do mundo passou agora também a pontuar para o World Touring Challenge da FIM!
Estão oficialmente encerradas as inscrições para o 28º Portugal de Lés-a-Lés 2026 que vai acontecer de 10 a 13 de junho. Os horários e informação essencial à participação ficarão disponíveis para consulta nesta página bastando para isso clicar em "HORARIOS"
Muitas surpresas na rota do 28.º Portugal de Lés-a-Lés
Um dia solarengo, em absoluto contraste com a intempérie que marcou as últimas semanas na zona centro do País, atraiu centenas de motociclistas à Figueira da Foz para a cerimónia de apresentação do 28.º Portugal de Lés-a-Lés. Uma grande adesão que deixa antever o sucesso de mais uma edição da aventura mototurística que, em 2026, será realizada entre os dias 10 e 13 de junho. E que, no Malibu Foz Hotel viu desvendadas algumas das muitas surpresas de um percurso inovador que vai ligar Faro a Vizela, com paragem em Alcochete e S. Pedro do Sul.
Apadrinhado pelo presidente da Câmara Municipal da Figueira da Foz, Pedro Santana Lopes, e com a presença do vice-presidente da edilidade vizelense, Arnaldo Sousa, o arranque oficial da maratona motociclística, organizada pela Comissão de Mototurismo da Federação de Motociclismo de Portugal, deu a conhecer um percurso longo e muito recheado. Com 1155 quilómetros de extensão, o 28º Portugal de Lés-a-Lés vai começar com um inovador Passeio de Abertura em Faro, levando os participantes de barco até à Ilha da Culatra, no Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas.
No dia seguinte, a primeira etapa com 425 km de extensão, liga a capital algarvia a Alcochete, com passagem por Alte e Santigo do Cacém, para, na tirada seguinte, serem cumpridos 430 km através de Santo Estevão, Fazendas de Almeirim, Tomar, Ansião, passando pela serra do Caramulo rumo a São Pedro do Sul. No último dia, a ligação mais curta que não menos exigente em termos de condução, de ‘apenas’ 300 km até Vizela, mas com uma paisagística volta por Montemuro, barragem da Valeira, Alijó, Vila Pouca de Aguiar e Cabeceiras de Basto.
Aproveitando a coincidência de um final de etapa em São Pedro do Sul, foi apresentada também a 2.ª edição do Portugal de Lés-a-Lés Classic, marcado para os dias 30 de abril a 3 de maio. Com uma apaixonada e apaixonante caravana de motos clássicas e antigas, fabricadas antes de 1996, será uma oportunidade ímpar para um fim de semana prolongado em redor dos tesouros de duas rodas, aproveitando o feriado do Dia do Trabalhador, na sexta-feira 1 de maio, para ter mais tempo para visitar diversas coleções públicas e privadas de máquinas que marcaram a história do motociclismo nacional e mundial.
Com etapas mais curtas, na casa dos 150 km, e partida de Lamego, a caravana de ‘respeitáveis senhoras’ rumará a S. Pedro do Sul, terminando o dia com a visita a uma belíssima coleção privada, prosseguindo para o Caramulo e a visita ao célebre e recheado museu com interessante acervo de duas rodas. A derradeira etapa terminará em Sangalhos, no Museu das 2 Rodas, instalado no edifício do Velódromo Nacional e onde existe uma boa coleção de modelos nacionais num espaço onde a interatividade permite uma agradável descoberta da história do motociclismo nacional nas suas mais diversas vertentes.
Uma apresentação – ou melhor duas! – que cativaram uma atenta plateia que não perdeu tempo para, de imediato, proceder à inscrição no 28.º Portugal de Lés-a-Lés e no 2.º Portugal de Lés-a-Lés Classic, para que aqueles que querem desfrutar do moto turismo por mais tempo possam partir na frente do grande e heterogéneo pelotão de motos. Os que não puderem estar presentes, terão de esperar mais uma semana para poder concretizar a inscrição através do site.
Inovador Passeio de Abertura levou motociclistas à ilha da Culatra
Centenas trocaram as motos pelo barco
O Portugal de Lés-a-Lés é um evento dinâmico em que, apesar da manter fidelidade à ideia original atravessando o País de uma ponta à outra desde 1999, vai sempre evoluindo e reinventando-se, apresentando inovações quando parece impossível descobrir mais novidades neste pequeno jardim à beira-mar plantado. Na 28.ª edição do evento organizado pela Federação de Motociclismo de Portugal, a grande surpresa foi o Passeio de Abertura que levou centenas de motociclistas à ilha da Culatra, descobrindo o verdadeiro pulmão marinho do Sotavento algarvio.
A ideia parecia demasiado ousada, a roçar a loucura. Afinal tratava-se de levar todos os participantes no Lés-a-Lés à descoberta de uma das ilhas barreira que delimitam a Ria Formosa a sul protegendo a enorme riqueza de biodiversidade marinha, triplicando por um dia a população local que, no último recenseamento contava cerca de 800 almas. E assim, através de uma complexa logística de viagens de e para Faro, apoiado pela Antero Motorcycles, o barco Mira Sado trabalhou mais do que nos melhores dias de verão. “Com uma enchente que só se vê por alturas das Festas de Nossa Senhora dos Navegantes, no primeiro fim de semana de agosto”.
A confirmação foi dada por Geraldo Carmo, o presidente da dinâmica Associação de Moradores da Ilha da Culatra (AMIC) que enalteceu “a vitalização da economia local, nomeadamente da restauração, ao receber um grupo tão grande de pessoas que chegam com um espírito diferente, para divertir-se num animado convívio e numa agradável interação com a população local”.
Uma festa que começava logo à saída do barco, no porto da Culatra, onde os ‘marinheiros’ de ocasião foram recebidos, de forma surpreendente e divertida, pelos pescadores e ostreiros dos Conquistadores de Guimarães. Sócios do divertidos moto clube que, a brincar davam conta da seriedade das atividades mais relevantes no contexto da economia local e que têm a particularidade de “conseguir fixar cada vez mais jovens, mantendo ativas as 60 ou 70 embarcações de pesca existentes na ilha”, como sublinhou Geraldo Carmo. Que explicou ainda que o crescimento do negócio das ostras, “sobretudo para França, para onde é exportada 99% da produção local, garante a viabilidade do negócio”.
Lés-a-Lés estreia-se no mar
Ilha de gente dedicada ao mar que preserva ainda as suas raízes de antigo povoado de pescadores, oferecendo morada a um Algarve autêntico, com uma população composta maioritariamente por pescadores e pelas suas famílias. A ausência de carros na ilha, transporta-nos para uma realidade diferente, permitindo mais facilmente imaginar histórias de antanho daquele núcleo piscatório que remonta a finais do séc. XIX e servia de apoio às campanhas sazonais das armações de atum. Atualmente, destacam-se as embarcações e artes do porto de pesca a nascente do cais de embarque, e os viveiros onde se cultiva ameijoa e ostra, a poente do cais
Uma visita que foi o ponto alto deste primeiro dia do 28.º Portugal de Lés a Lés sendo a primeira vez na história do evento que os participantes deixaram terra firme e trocaram as motos pela viagem no barco através dos canais da Ria Formosa. Depois foi tempo de curtas caminhadas até aos restaurantes mais próximos, ou de outras mais longas, para chegar ao extenso areal através do caminho pedonal que atravessa toda a aldeia da Culatra até ao mar. Tempo para apreciar a rica flora dos campos dunares e numerosas espécies de aves que convivem nestas paragens calmas, onde as águas são cálidas e tranquilas. Houve mesmo quem arriscasse a uma boa meia dúzia de quilómetros para visitar os 3 núcleos populacionais, saindo da Culatra até Farol, no extremo poente da Ilha, passando por Hangares.
Curioso foi o facto de muitos adeptos dos faróis portugueses nunca terem estado no farol do Cabo de Santa Maria, o mais a sul de Portugal Continental, e que deu o nome à aldeia conhecia como Ilha do Farol. Ou seja, não faltaram aos participantes muitos motivos de interesse para além dos extensos areais onde não havia espaço… para guerras de guarda-sóis.
Além disso, havia que recuperar de um dia que começou cedo para as primeiras equipas, com Verificações Técnicas e Documentais desde as 8.30 h. no Largo de São Francisco, mesmo junto às muralhas que defendiam Vila-Adentro. Depois de confirmados os documentos e o bom estado de luzes, piscas e pneus, havia que passar no palanque de partida, montado no Jardim Manuel Bívar, antes de uma pequena deslocação, de pouco mais de dois quilómetros até ao Cais Comercial. Onde, quais pescadores embarcadoiros, subiam a bordo do barco capitaneado pelo Mestre José Cuíça para uma viagem de 45 minutos. Bem menos que os 45 anos que leva de nem sempre fácil ligação ao mar.
“Na pesca havia sempre hora de sair para o mar, atrás do carapau, linguado, choco ou pata-roxa, mas nunca se sabia a hora de chegada. Por isso, estes últimos sete anos a fazer carreiras entre Olhão e a ilha de Armona e o Farol, ou de Faro para a aldeia da Culatra são bem mais calmos”. E juntamente com mais três tripulantes levou de forma segura e tranquila, 325 passageiros de cada vez, numa viagem onde não faltaram as cantilenas e ditados populares entre os pescadores. Como o que diz:
“Cabo da Roca, Senhora da Guia
Quem vai para o mar em terra se avia”
Faro ‘oferece‘ museus aos motociclistas
E se muitos, quase todos optaram pela descoberta da ilha da Culatra, das suas gentes e gastronomia, outros houve que dispensaram a viagem. Não por acharem desinteressante, mas pelo simples facto de a terem feito vezes sem conta. Como Miguel Farrajota que optou colocar a conversa em dia com os muitos motociclistas que foi conhecendo ao longo de mais de uma década de presença assídua no Portugal de Lés-a-Lés. “É uma maravilha da natureza que vale a pena conhecer”, não se cansava de publicitar aos que estavam prestes a embarcar e aos que foram mais tarde. Depois de visitar o Museu Marítimo “Almirante Ramalho Ortigão”, sedeado na Capitania do Porto de Faro desde 1962, organizado a partir do acervo do suprimido Museu Industrial Marítimo, ligado à extinta Escola Industrial Pedro Nunes.
Com uma coleção formada a partir de objetos e modelos mandados construir a título particular pelo oficial da Armada, António Artur Baldaque da Silva, foi posteriormente e por proposta do Inspetor Fonseca Benevides, adquirida pelo Governo, tendo a mesma aumentado gradualmente nos anos seguintes.
Espaço museológico sob responsabilidade da autarquia farense, tal como o Museu Municipal, bem no interior do antigo bairro fortificado, num espaço que resultou da adaptação do antigo Convento de Nossa Senhora da Assunção, um edifício do século XVI, com um fabuloso claustro renascentista que fez as delícias de muitos. Incluindo daqueles que não sabiam que o projeto foi galardoado como Melhor Museu Português, em 2005, mas aprenderam que as origens do museu remontam ao final do século XIX, quando foi criada uma coleção arqueológica e lapidária com o nome do Infante D. Henrique. Com o tempo, evoluiu para um museu municipal moderno, preservando atualmente um acerco com mais de 12 000 objetos catalogados ligados à história de Faro e à região do Algarve em geral.
Uma experiência ímpar através do tranquilo claustro, com as suas arcadas de pedra, pequeno jardim e detalhes esculpidos, proporcionada pela Câmara Municipal de Faro, franqueando as portas destes espaços aos motociclistas portugueses, espanhóis, franceses, suíço e luxemburgueses entre outros. Esses mesmo que, na quinta-feira arrancarão a partir das 6 horas para os 425 quilómetros da primeira etapa ligando Faro a Alcochete. Cerca de 10 horas e meia de condução através da serra algarvia, com passagem pelo Parque Natural do Sudoeste Alentejano e Costa Vicentina até às portas ribatejanas de Alcochete onde os primeiros motociclistas são esperados a partir das 16.30 h. Seguramente cansados, mas fascinados com tanta beleza e diversão que terão dificuldades em escolher, no palanque de chegada, o momento mais marcante do dia.
O Gabinete de Imprensa
Portugal de Lés-a-Lés
Calor intenso ampliou dificuldades da 1ª etapa do Lés-a-Lés
Emoções fortes e muito entusiasmo de Faro a Alcochete
Prometia muito e não desiludiu a primeira etapa do 28.º Portugal de Lés-a-Lés, com muitas surpresas e emoções fortes na ligação entre Faro e Alcochete, longa de 425 quilómetros. Foram mais do que as previstas 10 horas e meia entre a capital algarvia e a Avenida D. Manuel I sobranceira ao estuário do Tejo, num dia com estradas para todos os gostos. Desde a recurvada serra algarvia às retas da lezíria, do pitoresco e pouco conhecido barrocal algarvio aos verdejantes arrozais do Sado, passando pelas praias da Costa Vicentina, numa tirada por vezes bem rebuscada para encontrar alternativas a algumas das estradas aluídas no último inverno.
Para aproveitar ao máximo toda a potencialidade da jornada inaugural da grande maratona mototurística havia que ser madrugador, com o arranque do centro de Faro a partir das 6 horas e passagem rápida pela placa que, em Portugal, assinala a maior distância entre localidades, com os 738,5 km da sempre festejada N2 que leva até Chaves. Apesar de tocar várias vezes na Estrada Património, era diferente o caminho da caravana, saindo por entre laranjais, alfarrobeiras, oliveiras e figueiras, à descoberta de um Algarve bem diferente das turísticas paisagens da orla costeira.
Uma região bem representada por Alte, conhecida como a aldeia mais típica do Algarve, distinta pela arquitetura mediterrânica, com casas caiadas de branco e chaminés rendilhadas que contrastam com o arvoredo e com o rosa e laranja das buganvílias. Aldeia de Alte, que disputou com Monsanto o título da Aldeia Mais Portuguesa de Portugal em 1938 acabando por ganhar o título de Aldeia Cultural.
E se é certo que ninguém viu a cascata mais imponente do distrito, a famosa Queda do Vigário, e que dizem ser a mais ‘instagramável’ de Portugal, nem as 500 camisolas com que Pedro Pirralho, do café Germano BiciArte, decora a rua para a passagem das provas de ciclismo nas mesmas estradas divertidas e com belas paisagens que a caravana atravessou, outras coisas viu a longa e heterogénea caravana.
Vacas dançantes, burros casadoiros e outros animais bizarros
Viu as já famosas e divertidas ‘vaquinhas’ do Moto Clube de Albufeira mais os seus pastores e ‘pastoras’ e viu gente inquebrantável que luta contra a desertificação do interior. População bem representada pela presidente da Junta de Freguesia, Elisabete Luz, sempre entusiasmada e incansável na tentativa procurar apoios para a fixação dos mais jovens e da natalidade bem como de combater o envelhecimento dos pouco mais de 1700 residentes numa freguesia que conta com 1558 eleitores inscritos. É só fazer as contas…
Vá lá que vão surgindo alguns estrangeiros que se apaixonam perdidamente pela região, sobretudo belgas e franceses, mas também um curioso casal anglo-australiano que, além das várias propriedades que possui no concelho e entre os vários investimentos concretizados, produz várias qualidades de cerveja artesanal. Que, pasme-se!, são batizadas com o nome dos burros da casa, como Clara que dá título comercial à Blonde Ale, Baltazar, a cerveja mais potente, ou Chico Bento, o burro capado, para a cerveja sem álcool. Mais curioso é o facto de estar marcada para dia 19 de junho a ‘festa de noivado’ da Clara e do Baltazar, no preciso dia em que a burra faz anos esperando-se mais burrinhos dentro de pouco mais de ano.
Uma manhã que começou fresca e que viu os participantes arrancarem o mais cedo possível para fugir à canícula que se adivinhava. Temperaturas elevadas que os ciclistas bem conhecem da Volta ao Algarve, utilizando as mesmas estradas para subir ao Alto do Malhão. Um privilégio descobrir por onde passaram Juan Ayuso, Jonas Vingegard, Remco Evenepoel, João Almeida e outros nomes grande do pelotão mundial e pensar que pedalaram por estas encostas e pelas divertidas e paisagísticas estradas da crista da serra. O que eles não fizeram, ao contrário de todos os participantes do Portugal de Lés-a-Lés, foi a travessia a vau da ribeira de Odelouca. Na verdade, um pequeno fio de água, que mal deu para molhar os pneus, ao contrário do que se verificou no início do ano onde só de barco a motor ou, na melhor das hipóteses, de moto de água se conseguiria passar. Também sem complicações foram cumpridos os 900 metros em piso de terra para que o ‘road-book’ alertava e que, afinal, estavam em melhor estado que muitas estradas asfaltadas que o pelotão encontraria um pouco mais tarde.
Mas o pó que o calor ajudava a levantar à passagem de cada moto foi ‘limpo’ no Oásis de São Marcos da Serra com um excelente sumo natural, espremido ali mesmo das laranjas de Silves era acompanhado pelos ‘Esses’, bolos caseiros de forma bem condizente com as estradas da região, e o café de panela, adocicado com casca de limão. Simplesmente delicioso!
Aliás, se algo fica na memória dos participantes deste dia de aventura mototurística, foi o autêntico festival de descobertas gastronómicas proporcionado durante toda a etapa, havendo tempo para provar o Bolo do Tacho de Monchique, também conhecido por Bolo de Milho ou Bolo de Maio. Um doce tradicional feito com café, milho, especiarias e mel, bastante denso, aromático e cheio de sabor, e que é cozido no forno. E que está inscrito no Inventário Nacional do Património Cultural Imaterial segundo anúncio publicado no Diário da República nº 67/2025, Série II de 4 de abril de 2025. Ah, pois é!
‘Olh’á Bola de Berlim’, grita-se na praia
Para digerir tão distinta gulodice nada como as estradas e estradinhas sinuosas rumo a Odemira, o concelho com a maior área em Portugal, entrando no Alentejo pela ribeira de Seixe, através da quietude do Parque Natural do Sudoeste Alentejano e Costa Vicentina, havendo quem tenha feito um pequeno desvio até ao Cabo Sardão, seguindo o conselho do ‘road-book’ para ver o farol construído ao contrário, com a torre voltada para terra e a casa do faroleiro virada para o Atlântico. Uma raridade técnica e arquitetónica que ficou a dever-se a desentendimentos entre os engenheiros e o construtor deste farol com 15 metros de altura. que entrou em funcionamento em 1915, na ponta mais ocidental da costa alentejana. Não menos curioso foi o avistamento de zebras, Kobus Leche e avestruzes mesmo antes da descida para a praia do Carvalhal.
E ainda a pensar num dos mais bizarros faróis da nossa costa e nos animais exóticos, lá foram os mototuristas através da Zambujeira do Mar até Almograve onde se voltou a ver o Atlântico, debaixo de uma tenda que proporcionou um momento de muito apreciada frescura. Espaço montado pela Honda onde foi possível hidratar e descansar um pouco, enquanto saboreavam as melhores Bolas de Berlim do Mundo. Bem, pelo menos do Lés-a-Lés, esse evento mototurístico onde as surpresas podem estar ao virar de qualquer curva.
‘Pôrra, estás na Abela’
Às portas de Porto Covo, mas sem entrar no lugar imortalizado pela voz lânguida de Rui Veloso, a despedida do litoral encaminhou a trupe para a grande surpresa do dia. Uma autêntica romaria montada em Abela que deixou todos de ‘queixos no chão’, proporcionada pelos habitantes da aldeia do concelho de Santiago do Cacém, liderados pela Guida e Josélia, as esposas do André e Orlando que, entretanto, andavam a divertir-se com os amigos no Lés-a-Lés, pois claro. Mais a sério, a festa foi tal que, sobretudo depois da fabulosa açorda à alentejana e dos doces regionais acompanhados por jovens cantadores e música de baile, muitos ponderaram seriamente não mais sair dali até à noite, quase esquecendo que ainda faltavam bastantes quilómetros até Alcochete.
Para ganhar tempo e evitar ‘voltas e revoltas’, sobretudo devido ao aluimento da estrada em S. Romão do Sado, valeu a ajuda do piloto de todo-o-terreno e Campeão Europeu de Bajas, David Megre, que permitiu a travessia do Sado pela Herdade de Benagasil. Onde não faltaram ‘As meninas da Ribeira do Sado’ e alguma areia. E se às primeiras, resultado da divertida e profícua parceria entre o Moto Clube do Porto e Motards do Ocidente, todos acharam graças, o mesmo não se pode dizer da areia fofa que valeu alguns sustos, mesmo aos mais experientes. Mas houve estreantes que quase se aventuravam, como aconteceu com Sameiro Sá Carneiro que, depois de 20 edições à pendura do marido, Filipe Raposo, ganhou para coragem para encarar a longa maratona aos comandos da Honda CB500F. Para trás, garante, “ficou a descontração e maior possibilidade de apreciar a paisagem que se usufruiu do lugar do passageiro, e aumentou o stress de condução, sempre atenta à estrada, sobretudo para quem só tem a carta de condução há um ano e com pouco mais de mil quilómetros de experiência”. Mas, chegados à areia, foi o próprio marido, preocupado com o bem-estar da esposa (e talvez para evitar possíveis custos de oficina…) que se prontificou a atravessar uma centena de metros de piso mais movediço e algo traiçoeiro.
De coração cheio na Barrosinha
Foi a última ‘exigência’ de um dia longo, mas ainda havia outra paragem, um Oásis num sítio muito especial, a Herdade da Barrosinha que os motociclistas, impulsionados pelo Grupo de Acção Motociclista, ajudaram ao equipar com eletrodomésticos as 17 casas afetadas pelos temporais de janeiro, quando o Sado galgou margens e entrou porta adentro sem pedir licença, destruindo tudo o que encontrou pelo caminho. No Oásis Cam-Am, montado pelo piloto e preparador ‘dakariano’ Mário Franco, muitos ficaram a conhecer, na primeira pessoa, a história de 17 famílias que, na realidade, é apenas uma. Primas e irmãs, tias e sobrinhas, mães e filhas que tiveram direito a um carinho muito especial de todos os participantes nomeadamente Pedro Guedes, que ficou “enternecido com a história de vida destas mulheres. Uma foto e um miminho era o mínimo que podia fazer por estas pessoas” reconheceu o modelo, ator e ‘influencer’ convidado pela Multimoto para descobrir o Lés-a-Lés.
Agora sim, estava ‘ganho o dia’, e faltava apenas descobrir a estreante Alcochete, com a festa do palanque final e jantar servido pelos três motoclubes locais (Grupo Motard de Alcochete, GM do Convento e Os Flamingos Samouco) na ribeirinha Avenida D. Manuel I, rei aqui nascido em 1469. Local de onde parte a maior caravana mototurística europeia rumo a São Pedro do Sul, para uma jornada de 413 quilómetros, com saída desde as 6 horas e mais de 11 horas de viagem através do Ribatejo e charnecas passando pelos granitos do Caramulo até à famosa vila termal. Onde será complicado antecipar se os participantes ficarão mais satisfeitos por ver os rostos sorridentes da equipa de animadoras do palanque “Lynn & Co.” ou as mãos milagrosas dos osteopatas da Osteomotus. Aceitam-se apostas…
O Gabinete de Imprensa
Portugal de Lés-a-Lés
Animação extraordinária ajudou a ultrapassar etapa abrasadora entre Alcochete e São Pedro do Sul
De Oásis em Oásis até ao descanso nas termas
Foi um dia quente, muito quente mesmo, o vivido na segunda etapa do 28.º Portugal de Lés-a-Lés que levou a longa caravana mototurística de Alcochete a São Pedro do Sul. A temperatura andou regularmente acima dos 35º C e só a gigantesca animação nos setes (!) Oásis ajudou a ultrapassar as dificuldades dos 413 quilómetros ampliadas pela intensa canícula. Mais um dia de grande intensidade e elevada exigência para ficar na história da grande aventura gizada pela Federação de Motociclismo de Portugal. Um ‘esforço’ que todos reconheceram “ter valido bem a pena”, num dia em que a regularidade foi palavra de ordem para cumprir o percurso dentro das 11 horas e 20 minutos previstas.
Talvez por isso os participantes apresentaram-se sem atrasos à partida da Avenida D. Manuel I, despedindo-se de Alcochete com Lisboa em pano de fundo, tentando também escapar à confusão do trânsito normal de uma sexta-feira, ampliada pelas centenas de motociclistas que só queriam sair dali rumo às estradas mais despovoadas da lezíria ribatejana. As longas retas até Santo Estevão ajudaram a acordar os mais renitentes, mas não preparam ninguém para a grande festa instalada pelos elementos do Almansor Motor Clube, com apoio da Junta de Freguesia e da Câmara Municipal de Benavente. O mais divertido dos controlos que contou com importante contributo da Cambota, a vaca que era necessário desafiar para conseguir o furinho na tarjeta que atesta a passagem na totalidade dos controlos horários.
Desafio e correrias à frente do pequeno bovino que abriram o apetite para as bifanas e chouriço assado bem como para a gigantesca variedade de bolos e doçarias a acompanhar o café do pote. Bolos de laranja, de iogurte, de bolacha, de noz, de cerveja, de lima, de limão, de coco, tartes de feijão e de amêndoa e tantos outros bolos caseiros, feitos e oferecidos por toda a comunidade de Santo Estevão. A oferta era tão extensa que a grande dificuldade estava mesmo na escolha.
Quem não teve esse embaraço foi o pequeno José Ledo que, aos sete anos, cumpriu um sonho que dura, imagine-se há quatro anos. Desde que o pai, com o mesmo nome, lhe ofereceu uma pequena moto que “chateia sem parar para vir ao Lés-a-Lés. E agora que tem idade legal para andar de moto não havia como não o trazer”. Misturando uma grande alegria com a timidez própria da idade, o mais pequeno dos Zés reconheceu, entre sorrisos, que “o calor fez sofrer um bocadinho, mas já estava preparado para aguentar”.
Mais interessante foi a resposta ao melhor momento desta grande aventura ao longo do País: “Sem dúvida as bolas de Berlim da Honda! Os bolos de Santo Estevão? Pareciam ótimos, mesmo sem ter provado, porque ainda estava muito cheio do pequeno-almoço no hotel”. E lá seguiu supersatisfeito à pendura do pai e com a companhia de amigos de Esposende, mas também de outras localidades do Minho e até da vizinha Galiza.
Valiosa e demonstrando grande conhecimento de causa, foi também a dica dada por Rodrigo Ribeiro em Santo Estevão de que “as vacas são mais perigosas porque marram de olhos abertos, ao contrário dos bois que fecham os olhos quando investem”. Curiosamente, o ex-deputado do PSD aprendeu esta singularidade bem conhecido do mundo tauromáquico graças aos ensinamentos de João Oliveira, ex-presidente da bancada parlamentar… do PCP.
Retas e mais retas… antes de muitas curvas
Saídos de Santo Estevão, lá continuaram as intermináveis retas num dia em que as paisagens foram bem mais variadas do que as estradas, que variaram entre as retas, até à travessia do Tejo, em Constância, seguindo-se um festival de curvas, com uma segunda parte da etapa em troços de montanha.
Retas que levaram o pelotão até Fazendas de Almeirim, onde foram bem exaltadas as tradições ribatejanas do toureio, mas também da sopa da pedra e do pampilho. Mais um arraial montado na Junta de Freguesia, com o apoio da BMW Motorrad, dos Aceleras da Charneca e d’Os Cagões das BMW, além da animação do Rancho Folclórico local, e que até contou com cerimoniosa visita do presidente da Câmara Municipal de Almeirim, Joaquim Catalão.
Momento de festa ímpar, ora com uma tourinha, o boneco de touro para treinar as pegas de caras, ora dançando ao som de um artista local, ora cumprindo um dos principais desígnios do Lés-a-Lés: a descoberta gastronómica! Quer provando a bem conhecida sopa da pedra como o doce típico de Santarém, o pampilho, homenagem aos campinhos que na lezíria guardam os touros. O nome foi escolhido pela semelhança com a vara comprida usada pelos campinos para dirigir os animais, e o doce foi criado, há cerca de 30 anos, na Pastelaria Acides, local onde os alunos da Escola Agrária da região e a elite dos ‘forcados de Santarém’ se reuniam habitualmente para confraternizar.
Desta maneira foi criada uma doce homenagem às gentes ribatejanas, ligando os mais conhecidos ‘ex-líbris’ do Ribatejo (o touro e o cavalo), com um doce com cerca de 19/20 cm de comprimento por 4,5 cm de largura e 2 cm de espessura, numa cor amarelo-vidrada e tostada na parte superior, tendo como ingredientes farinha, açúcar em pó, ovos e manteiga e um recheio de doce de ovos com amêndoa.
Digestão dos bolos e da galhofa
Para fazer a digestão dos tesouros gastronómicos, mas também da barrigada de galhofa e boa disposição, nada como as estradinhas entre os verdejantes campos que aproveitam a fertilidade do vale do Tejo, antes da passagem por terras de fortes tradições no motocrosse. Benavente, Salvaterra de Magos, Glória do Ribatejo, Paço dos Negros e Raposa são nomes bem conhecidos dos adeptos da modalidade graças às pistas ali existentes.
E que ficarão na memória do galego Agustin Abalde Grela que viu a Serveta Jet 200 ficar com o depósito seco, talvez pela ‘estonteante’ velocidade que as longas retas permitiram a esta moto, fabricada em Espanha entre as décadas de 1960 e ’80 sob licença da Lambretta. Mais um problema “a juntar aos verificados no primeiro dia, quando a roda traseira desapertou-se ou as tampas laterais que caíram”. Quem parecia mais divertido com azares alheios era o companheiro, Pedro de La Fuente, normalmente vítima maior de todos os contratempos na sua Lambretta LI 150. E que, por esses e por outros obstáculos, só à terceira tentativa conseguiu cumprir o desejo de participar no Portugal de Lés-a-Lés. Primeiro foi a pandemia de Covid-19 em 2020 e no ano passado foram os problemas na máquina”.
Quem também teve problemas mecânicos foi o ex-piloto de enduro e Todo-o-Terreno Rodolfo Sampaio, que viu saltar o veio da transmissão da raríssima Honda 50 importada dos Estados Unidos. Uma falha já na parte final do dia que obrigou a reparação de improviso na berma da estrada, mas não ensombrou o mesmo sorriso que, curiosamente, se vira durante a manhã, mesmo à entrada de Santo Estevão, num grande cartaz de consultor imobiliário.
Lições gravadas na pedra
Também ele apreciou as vistas Oásis Yamaha/Bluemotor, com vistas sobre o Castelo de Almourol, onde o ‘road-book’ oferecia mais uma lição de história ao ensinar a muitos que as ameias da construção defensiva criada pelos mouros e reforçada pelo templário Gualdim Pais foram, afinal, colocadas durante o Estado Novo. E, depois da travessia por bucólicos azinhais e carvalhais, árvores que os motociclistas ajudam a proteger com a campanha Reflorestar Portugal de Lés-a-Lés, tempo para novo Oásis, do Grupo Jomotos, em Santiago da Guarda, mesmo junto ao interessante Solar dos Condes de Castelo Melhor, antes de nova paragem em Vila Nova de Poiares, bem no centro da Capital da Chanfana.
Depois atravessando e bordejando o Mondego, a caravana foi vivendo a mudança de paisagens rumo a Penacova, com destino final à centenária Mata Nacional do Bussaco para mais uma animada e bem nutrida paragem na Porta de Sula. Local onde o Grupo Multimoto montou mais um Oásis, bem encostado aos muros que protegem a magia de mais de 40 hectares de uma floresta ímpar que a Fundação Mata do Bussaco gentilmente permitiu aceder de moto, passando pela Porta da Rainha rumo ao palácio mandado construir pelo Rei D. Carlos I e onde havia a obrigação de parar. Se não para apreciar o Palácio do Bussaco, pelo menos para fazer mais um furo na tarjeta, saindo depois pela Porta das Ameias em direção ao Luso.
Já com São Pedro do Sul no pensamento dos aventureiros, mais um Oásis, no espetacular parque de São João do Monte, onde a Cross-Pro ofereceu a água mais fresca do dia e um pão de chouriço, recheado também com cogumelos e azeitonas. De barriga cheia, preparados para aguardar o momento de subida ao palanque, os mototuristas ainda tiveram tempo para uma boa dose de diversão no fantástico sobe-e-desce em estradas do Caramulo, pela Torre de Alcofra, a mais bem preservada das três de Vouzela, antes de passar pelas Termas de São Pedro do Sul e chegar, logo depois, à sede de concelho no Vale de Lafões. Local de onde parte a última tirada, até Vizela, que, mesmo sendo a mais curta, com ‘apenas’ 320 quilómetros de extensão será ‘osso duro de roer’. Ou não estivesse o Lés-a-Lés no norte de Portugal.
O Gabinete de Imprensa
Portugal de Lés-a-Lés
Portugal de Lés-a-Lés com ‘Colheita Vintage’ em 2026
Encerrou em grande a edição de todas as lendas
Super divertida, tórrida, inovadora, nutrida, exigente, casamenteira, descobridora, desafiante, gulosa e atrevida. Assim foi a 28.ª edição do Portugal de Lés-a-Lés, essa aventura que, todos os anos, leva centenas a descobrir um País fabuloso para o mototurismo. Claro que muitos mais adjetivos poderiam ser utlizados, mas esses guardam-nos, na alma e no coração, todos e cada um dos participantes que percorram mais de 1100 quilómetros entre Faro e Vizela, parando em 18 Oásis e noutros tantos locais em busca de um alicate que assinalasse na tarjeta o cumprimento integral de um percurso soberbamente apresentado nas 67 páginas de um ‘road-book’ que é uma obra de arte.
Números que, no entanto, são insuficientes para espelhar a real dimensão da maior aventura mototurística da Europa, colocada na estrada por uma grande equipa, e que, nesta ‘colheita vintage’ de 2026 garantiu enorme animação do primeiro quilómetro ao último metro. Sempre com muito calor, que nem a ameaça de chuva e algumas pingas na última etapa amenizaram, ajudando a tornar cada paragem parte integrante (ainda mais!) de uma descoberta que deixou portugueses e estrangeiros de sorriso rasgado na chegada ao palanque final. Uma festa enorme para encerrar um festival de curvas e gargalhadas, de surpresas gastronómicas e até inusitadas cerimónias que não estavam no programa do evento organizado pela Federação de Motociclismo de Portugal.
No festival mototuristico entre as cidades termais de São Pedro do Sul e Vizela, foram 320 quilómetros de um trajeto abrangente, através das Terras do Demo de Aquilino Ribeiro, das paisagens únicas do Douro Vinhateiro, das explorações auríferas nas minas de Jales e da agreste ruralidade de Terras de Basto. Segundo o horário ideal previsto, eram 11 horas e 20 minutos de absoluto envolvimento turístico num dia excelente para a prática da modalidade, que começou mais fresco do que os anteriores, para uma primeira paragem em Castro Daire que tão bem recebe os motociclistas. Não apenas no Lés-a-Lés mas ao longo de todo o ano, tornando-se uma das paragens icónicas da N2. Enquanto muitos reforçavam o pequeno-almoço madrugador com uma fatia do famoso Bolo Podre, outros conseguiram apreciar um dos primeiros Austin Ten, modelo de 1933, que o senhor Evaristo utiliza de forma regular para mostrar aos estrangeiros toda a potencialidade turística da região, em animados passeios que se estendem para lá do Douro.
Aquilino Ribeiro e o ‘camião’ do francês
Que era exatamente o destino da caravana que, ainda algo ensonada, passou pela labiríntica aldeia de Pendilhe, onde Dominique Gaignet disse mal da sua vida para manobrar a gigantesca Harley-Davidson Electa Glide, comprida de dois metros e meio e com mais de meia tonelada sobre duas rodas. O francês do Moto-Club Luçonnais (organizador do FIM Motocamp em 2025) reconheceu “a elevada qualidade e originalidade do evento, impecável em todos os aspetos, apesar de estar longe de ter um percurso ideal para esta moto”. Um lamento que não roubou o sorriso a quem fez mais de 3600 quilómetros só para chegar a Faro, passeando com sete amigos pelo sul de Espanha. Isto porque foi incapaz de dizer que não ao desafio lançado por Eric Sperner, presidente do clube que é geminado com o Grupo Motard de Fafe, e que é casado com Rosa Armanda Silva, uma portuguesa… de Fafe. Está explicado!
Ficou triste o ‘monsieur’ Gaignet porque, preocupado que estava com a condução do ‘camião’, não reparou na dezena de espigueiros que dão um toque único a Pendilhe, mas fez questão de passar com toda a serenidade numa Vila Nova de Paiva que ainda se espreguiçava. E com calma passou também no desvio pelas ruelas de Soutosa, terra onde nasceu aquele que muitos apontam como o maior prosador português do século XX, Aquilino Ribeiro. A Fundação que protege o espólio e as memórias do autor de Terras do Demo ou Volfrâmio ainda estava fechada, mas, pouco depois, mesmo em frente à Câmara Municipal de Moimenta da Beira, era possível perceber a ligação do escritor e empenhado ativista anti ditadura às origens. Afinal, a homenagem materializada na estátua ‘Quando os Lobos Uivam’, não deixa margem para dúvidas.
Levando muito a sério os avisos do ‘road-book’ e de toda a organização quanto à exigência da terceira etapa deste Lés-a-Lés, andaram lestos os participantes que passaram em São João da Pesqueira bem dentro do horário previsto, havendo quem, com medo de atrasos, até se tenha antecipado. A entrada no concelho, atravessando o Rio Távora na robusta ponte de arco único de Riodades, fez recordar outra relevância motociclística, com as marcas deixadas pelos fogos a sublinhar a importância da campanha Reflorestar Portugal de Lés-a-Lés que, ano após ano, tenta mudar mentalidades e a constituição da floresta nacional, apelando ao uso das árvores autóctones.
Reflexão que terá passado para segundo plano ao atravessar o histórico centro de São João da Pesqueira e a sua barroca Praça da República, que já serviu de restaurante num almoço de uma das primeiras edições do Lés-a-Lés. É que a aventura não para e é necessária muita atenção para guardar tantos detalhes deliciosos que o evento vai desvendando.
Histórias de naufrágios e traições no Douro
Tão deliciosos quanto as paragens, indispensáveis para hidratar e alimentar os participantes, em tempo aproveitado também para ir colocando a conversa em dia e falar sobre as maravilhas acabadas de ver. Assim foi também no Oásis montado em parceria pelos elementos dos moto clubes do Porto, um dos criadores do Lés-a-Lés no longínquo ano de 1999 que recriou importante episódio histórico, e de São João da Pesqueira, que, com o apoio da autarquia, proporcionou a tradicional bola de carne e dois porcos no espeto. Havia que comer para manter as energias que era ainda longo o caminho até Vizela, continuando pelo coração do Douro Vinhateiro, entre estradas encantadas, com passagem pela barragem da Valeira. Construção de 1975, um pouco a jusante do famoso cachão, o desfiladeiro granítico que estrangulava de tal forma o Douro que, enfurecido se lançava de uma altura de vários metros.
Local que foi palco de lendário naufrágio recriado no Oásis anterior, com ajuda dos Bombeiros Voluntários que deram maior realismo com um bem-agradecido banho de mangueira a recordar águas tempestuosas. Como aquelas que, a 12 de maio de 1861, levaram ao naufrágio do luxuoso rabelo do segundo marido de Dona Antónia Adelaide Ferreira. Diz a lenda que a ‘Ferreirinha’ se salvou graças ao balão criado pelas longas saias, enquanto o próspero empresário britânico, Joseph James Forrester, tornado Barão pelo Rei Fernando II, falecia devido à sua avareza. Conta-se que os sacos de moedas presos ao cinto e colocados nas botas o terão levado rapidamente ao fundo, mas Camilo Castelo Branco, contemporâneo do acontecimento e sempre muito bem informado das vidas mais mundanas onde ia buscar inspiração para as suas novelas, narra a verdade com outras letras.
No livro O Vinho do Porto, o escritor que viveu durante vários anos por aquelas bandas, conta que o Barão de Forrester terá sido atingido pelo mastro da embarcação, caindo atordoado às águas revoltas e esbracejado durante alguns minutos em busca da salvação. Algo que José da Silva Torres, administrador de longa data dos negócios e segundo marido da ‘Ferreirinha’, não terá tentado evitar, ficando quedo e mudo perante os pedidos de socorro do inglês. Talvez, conta Camilo, por saber do envolvimento romântico entre ele e a agora esposa ‘Ferreirinha’…
Curvas a subir e curvas a descer
Diz a experiência motociclística que depois de cada descida vem uma subida e vice-versa. Se a isso juntarmos um festival de curvas é possível fazer uma pequena ideia da diversão na descida ao Douro, na subida até Linhares e Parambos, em nova descida através de Ribalonga, a aldeia dos construtores de socalcos, com direito a passagem pela Barragem do Tua e na magnífica ascensão a São Mamede de Ribatua, com desvio ao Miradouro do Ujo para apreciar o Reino Maravilhoso exaltado pelo grande Miguel Torga. E mais uma estrada empinada até Alijó onde, claro está, houve novo Oásis, mostrando as doces laranjas do quente vale de S. Mamede de Ribatua como um dos vários produtos de excelência da região.
Que bem souberam a Matilde Jacinto, a mais jovem condutora do evento que, aos 15 anos, sofreu a bom sofrer para ultrapassar as longas e exigentes subidas durienses. “É que não bastava ter um moto de apenas 50 cc, como não estava habituada à Sherco SM que chegou poucos dias antes do Lés-a-Lés. Além de que nunca tinha feito tantos quilómetros nem conduzido durante tanto tempo”. Ainda assim, a jovem de Estremoz estava radiante porque, “apesar da dureza, vive-se um ambiente espetacular, com visita a locais que não conhecia e descobrindo coisas que nem fazia ideia que existiam”. Ao lado, de olhar enternecido e orgulhoso, os pais Andreia e Bruno assumiam a ‘culpa’ de ter estimulado a filha a participar (bem como o sobrinho Tomás Cheira numa AJP 125) e depois de sete presenças, sempre em motos mais aptas às exigências de grandes viagens, optaram por viver uma aventura diferente. A mãe Andreia trocou a enorme BMW GS pela pequeníssima Honda Monkey 125 e o pai participou com uma Suzuki TU 250 carregada de história. “Foi a primeira moto e comprada com o empréstimo de metade do dinheiro pela namorada e agora esposa. O dinheiro foi devolvido”, garante o marido Bruno recordando uma paixão comum que ajuda a reforçar a relação a cada quilómetro que passa, “até que há pouco tempo o amigo a quem a vendi aceitou voltar a vendê-la!”
Escândalo em Vila Pouca de Aguiar
E assim, com cilindradas e andamentos mais próximos, esta verdadeira aventura em família seguiu através de Favaios, capital do moscatel, apreciando os últimos vinhedos até Vilar de Maçada, e daí, atravessando as serras de Vilarelho e da Falperra, chegar ao planalto de Jales. Zona de terras auríferas exploradas desde há mais de 2000 anos, numa epopeia que começou no tempo dos romanos e se prolongou até outubro de 1992, criando numa estrutura que chegou aos 650 metros de profundidade no último dos 16 andares subterrâneos.
Mas o ‘grande escândalo’ surgiu durante visita ao Centro de Interpretação Mineiro de Jales, ao descobrir que ‘Donald Trump’ decidiu dar nova vida ao complexo anunciando a compra com o dinheiro ostentado, ali mesmo, por ‘J.D. Vance’. Um ‘good deal’ de quem garante possuir todas as cartas para jogar onde e quando lhe apetecer, acompanhado da promessa de ‘Make Vila Pouca de Aguiar Great Again’ que deixou os próprios ‘americanos’ espantados.
Um grupo de 10 emigrantes lusitanos, literalmente de todos os cantos de Portugal, de Chaves a Lisboa, de Alenquer a Faro, que se conheceram em New Jersey e ficaram unidos pela paixão motociclística. A ideia começou com Paulo ‘Montanellas’ Sousa que descobriu o Lés-a-Lés em 2022 e regressou em 2024. Para a 28.ª edição desafiou mais amigos e todos alugaram motos para a aventura da Federação de Motociclismo de Portugal. Todos não, “que há quem tenha poder financeiro para mandar vir a Gold Wing desde os Estados Unidos apesar de sair bem mais em conta alugar uma moto”.
Espantados com o nível da organização, elogiaram o controverso ‘Trump’ de Jales como um dos momentos altos deste Portugal de Lés-a-Lés, enaltecendo “a capacidade de brincar com temas bem atuais ao mesmo tempo que mostram a História de Portugal de uma forma espetacular”. E depois de uma visita à réplica dos tuneis das minas e de conhecer as ferramentas originais das muitas profissões indispensáveis numa exploração mineira, seguiram para Vila Pouca de Aguiar descobrindo pelo caminho alguns pinheiros-do-Oregon, conífera de grande porte originária da América do Norte. E descobriram também, juntamente com todos os outros participantes, uma nova forma de chegar à cidade transmontana, trocando o bom asfalto da convencional pela N212 por uma abordagem diferente através de inclinados quelhos mesmo até ao centro.
Onde, fazendo jus à fama das suas qualidades, não podia faltar a conhecida Água das Pedras, extraída ali bem perto, no Parque das Pedras Salgadas, e onde até havia a possibilidade de assistir ao Concurso de Saltos Internacional, no Centro Hípico das Romanas. Curiosamente, os equídeos voltaram a ser tema de conversa em Cabeceiras de Basto onde a caravana chegou depois de mais uma boa dose de curvas com passagem por Ribeira de Pena, subindo ao Alvão, descendo ao Tâmega, visitando Arco de Baúlhe.
A lenda d’O Basto em palco de corridas… de burros
Tudo isto antes da paragem junto ao imponente Mosteiro de São Miguel de Refojos, fundado no tempo de D. Afonso Henriques e com a particularidade de ser o único dos 29 mosteiros beneditinos que tem um zimbório. Ali mesmo ao lado, num ‘asnódromo’ onde são feitas corridas de burros e que daria uma bela pista oval para corridas de ‘speedway’, os Motogalos de Barcelos animavam as hostes recriando a Segunda Invasão Francesa de 1809, lideradas pelo Marechal Soult, e picavam as tarjetas, enquanto os Bombeiros Voluntários Cabeceirenses voltavam, tal como há dois anos, em Cavez, a proporcionar excelentes bifanas.
Recordou-se a passagem das tropas napoleónicas que, vindas de Chaves e em direção ao Porto, percorreram e saquearam vários pontos da região do Minho e de Trás-os-Montes, causando grande destruição no vale do Tâmega, nomeadamente da histórica Ponte de Basto, cuja estrutura medieval foi parcialmente destruída. Falou-se de franceses, mas também da lenda d’O Basto, o poderoso monge guerreiro lusitano, tão grande em estatura como na coragem, que defendeu o Mosteiro de São Miguel da feroz investida dos Mouros durante o período do Império Visigótico. Depois de mandar os companheiros para acudirem a outros lugares, Hermígio Romarigues fez frente às tropas de Tarik, gritando junto à ponte que dava acesso ao Mosteiro: "até ali, por São Miguel, até ali basto eu!".
E tanto bastou que, com bravura, repeliu as três investidas, cobrindo a ponte de corpos inimigos e obrigando os Mouros invasores e com maior poder bélico, a negociar de igual para igual com o Abade D. Gelmiro. Esse ‘basto’ acabou por dar nome a toda a região e foi imortalizado através da famosa estátua erigida em sua homenagem, como reconhecimento pelos serviços prestados a El-Rei Pelágio integrado no reduto das Astúrias durante a Reconquista Cristã.
Quatro casamentos e um Mundial
Momento histórico que quase distraía os mais atrasados (ou seriam as bifanas?...) que estava na hora de debandar em direção a Vizela. Antes, porém, a passagem pelo Confurco, meca do Rali de Portugal, mesmo às portas de Fafe, com o local onde foi dada a partida para o 15.º Lés-a-Lé a servir agora de palco à cerimónia do pódio do primeiro dos dois dias da primeira jornada portuguesa que marca exatamente o meio do Campeonato Mundial de Enduro. Quem ficou com pena de não poder ver em ação os melhores enduristas do planeta, tem nova possibilidade no fim-de-semana de 20 e 21 de junho, em nova ronda pelas serras de Fafe, na única localidade que acolhe duas jornadas mundialistas em 2026.
Sem tempo a perder que os implacáveis ponteiros do relógio não param, a passagem à porta da singela e robusta Igreja Românica de Arões e a subida à Penha para tentar fugir às zonas industrializadas, fez com que começassem a aparecer com frequência crescente placas a indicar Vizela. “Está quase” pensavam todos os aventureiros a pensar com o momento de glória de subida ao palanque final.
Porém nada no Portugal de Lés-a-Lés é tão linear como parece à primeira vista, isto é, ao olhar para o ‘road-book’, e para acabar em GRANDE, nada como uma visita à Igreja de São Cristóvão, em Abação. Uma surpresa que deixou muitos embasbacados com o grande aparato, com detetores de metais e muitos seguranças de óculos escuros e auriculares, que exigiam o convite entregue no Controlo 1, na Culatra, para a entrada numa festa de casamento. Ou melhor na celebração (real) de umas Bodas de Ouro e de quatro casamentos (‘fake’) que a rapaziada dos Conquistadores não faz por menos. Uma festa gigantesca no último controlo, o 18, em que as noivas chegaram em viaturas clássicas perante os aplausos dos quase 100 convidados vestidos a rigor.
Um equívoco, terão pensado alguns face ao realismo do evento. Nada disso: apenas o Motoclube de Guimarães a ser ele próprio tal como havia sido na ilha da Culatra, onde deu imprescindível contributo para o sucesso do inovador Passeio de Abertura. Uma deslumbrante festa de casamento com que os divertidos motociclistas vimaranenses marcaram o encerramento de um dos mais animados Portugal de Lés-a-Lés de sempre, que, porém, só terminaria uns quilómetros adiante.
Foi em Vizela, perante milhares de habitantes e com grande animação num palanque que contou com engraçados Centuriões Romanos, uma bela personificação da Vizela Romana e personagens em andas a juntarem-se às já imprescindíveis dançarinas numa festa onde nem faltou o fogo de artificio. Nem faltaram as mãos dos osteopatas da Osteomotus ou o apoio dos estreantes mecânicos Filipe, David e Diniz que se juntaram à equipa da Motoval. Nem faltou, claro está, um saboroso jantar, rematado com o famoso bolinhol, criado em 1884 e aclamado como uma das Sete Maravilhas Doces de Portugal em 2019. Repasto servido no Jardim Manuel Faria, mesmo ao lado da Praça da República, de onde partirá a edição de 2027 deste feita rumo a terras algarvias. Que, sublinhe-se, terá enormes exigências de qualidade depois do sucesso de 2026, fortemente aplaudido por todos os envolvidos no 28.º Portugal de Lés-a-Lés. Uma edição lendária, para ficar na história do motociclismo nacional.
O Gabinete de Imprensa
Portugal de Lés-a-Lés
Os participantes do 2º Portugal de Lés-a-Lés Classic já podem consultar o seu horário e as informações indispensáveis à sua participação clicando em HORÁRIOS.
Honrando a dedicação à preservação e promoção da herança motociclística, o Lés-a-Lés Classic pretende levar a passear motos clássicas que marcaram gerações convidando-as a sair das garagens e dos museus para que nos possam encantar novamente com todo o seu esplendor e estilos próprios, proporcionando-nos uma experiência multissensorial que não está ao alcance de museus. O Lés-a-Lés Classic não é apenas uma exibição ou um passeio, mas sim um ponto de encontro que ganha vida na paixão pelas motas de outros tempos e no espírito de camaradagem que se unem no recordar de boas memórias e na liberdade que a moto e a estrada nos proporcionam.
Obrigado por tornarem possível o Lés-a-Lés Classic, contamos convosco na grande festa do mototurismo nacional clássico. Até já!
Lamego ‘verificou’ participantes do 2.º Portugal de Lés-a-Lés Classic
O Lobo e a menina dos olhos verdes
Um tem milhares de quilómetros de experiência e muitas motos na garagem. A outra faz a estreia absoluta aos comandos de uma pequena Vespa 50S. Apesar dos curtos 40 quilómetros que separam Aveiro de Mozelos, Santa Maria da Feira, Jorge Lobo e Isabel Araújo nunca se haviam cruzado. Em boa verdade, ainda não se conhecem, mas vão, seguramente. encontrar-se ao longo do 2.º Portugal de Lés-a-Lés Classic. Ou não fosse esta a magia dos eventos organizados pela Federação de Motociclismo de Portugal, de conhecer pessoas muito diferentes que partilham o gosto pelas motos. O que já deu para perceber bem no centro de Lamego, com a enorme escadaria do santuário de Nossa Senhora dos Remédios em pano de fundo, local onde decorreram as Verificações Técnicas e Documentais às ‘velhas senhoras’ e respetivos condutores.
Motos todas elas fabricadas antes de 1996 e onde se destacava a BMW R50/2 de 1968 com ‘side-car’ de Jorge Lobo, participante assíduo nos Portugal de Lés-a-Lés de estrada tendo também descoberto o Classic no ano de estreia. “Só falta o Off-Road, mas a idade aconselha prudência” explica entre sorrisos de quem se diverte de forma genuína nestes eventos. “É uma questão de paixão que serve também para dar uso às 12 motos antigas que estão lá em casa a que se juntam mais umas quantas motorizadas de várias épocas, desde a Cucciolo à Kreidler K51, várias Sachs e Famel. Um museu? Nada disso, apenas umas motos na garagem…” esclarece este empresário aveirense que tem nos cavalos outra grande (enorme!) paixão. Além de criador, possui uma invejável coleção de carros puxados por cavalos, incluindo várias charretes antigas, usadas em corridas e patentes ao público no Museu de Atrelagem da Quinta de Lagoalva, na Golegã.
Logo atrás, na ordem de partida em Lamego, está Isabel Araújo acompanhada do namorado Vítor e de mais três amigos, o Paulo, o Gustavo e o Carlos, todos em Vespa 50S. Uma escolta que garante apoio e muita diversão a alguém que, garante a pés juntos, “faz a estreia absoluta a conduzir num passeio por pequeno que fosse. Normalmente passeava à pendura, mas fizeram tanta pressão que não resisti”. Pode ser mais uma motivação para “acabar de tirar a carta de moto” e quem sabe, fazer ainda mais passeatas. É que quem alinha num Lés-a-Lés fica apaixonado pelas descobertas proporcionadas e que, no caso do Classic, vão além das deslumbrantes paisagens e da boa gastronomia, prolongando-se em alguns dos mais interessantes museus de motos.
Será o caso da coleção de Damião Cardoso, a visitar no final da primeira etapa que liga Lamego a S. Pedro do Sul, reforçando os motivos de interesse para os adeptos das motos antigas e clássicas. Uma tirada com 150 km com passagem pelas míticas estradas nacionais N2 e N222 e vistas ímpares da margem esquerda do Douro, subindo depois em direção a Tabuaço onde haverá lugar a uma descoberta particularmente curiosa: ali está, em plena Loja Interativa de Turismo, a mais completa, complexa, exótica e insólita obra de relojoaria do Mundo.
A partir daí a paisagem vai ganhar maior intensidade serrana, levando a caravana à barragem de Vilar, próximo de Moimenta da Beira, antes de infletir para Oeste, em direção a Castro de Aire, e daí, atravessando conjunto montanhoso Arada/Montemuro, até S. Pedro do Sul. Onde todos poderão apreciar o vasto e rico acervo que reúne joias da BMW, Norton, Harley-Davidson, Indian, BSA, Ariel, Triumph, Zundapp, Ducati, Moto Guzzi, Rudge, Matchless, Sunbeam, Laverda, Vincent, Velocette, Bimota, Benelli ou Nimbus e que será uma ajuda excelente para fazer a digestão. É que, ao contrário de 2025, todo o percurso será feito durante a parte da manhã, permitindo depois visitar tranquilamente os vários museus e aproveitar para conversar sobre a paixão que une os mais de 150 participantes: as motos antigas e clássicas.
O Gabinete de Imprensa
Portugal de Lés-a-Lés
Um relógio que não dá horas marcou o ritmo da primeira etapa do Lés-a-Lés Classic
Campeão que adora motos e… complicações
Façamos uma adaptação motociclística do velho provérbio e teremos algo como ‘de génio e de piloto, todos temos um pouco’. Já de campeão… nem tanto! Mas quando se cruzam os dois e se junta um apaixonado pelas motos antigas, o resultado é uma etapa fenomenal, a primeira, do Portugal de Lés-a-Lés Classic 2026, num dia em que caravana despertou ao som dos bombos da Associação Cultural Recreativa Desportiva Etnográfica de Cambres com empenhados tocadores entre os 11 e os 56 anos. Mas vamos esclarecer, por ordem, os nomes dos principais protagonistas da ligação entre Lamego e São Pedro do Sul: Amândio José Ribeiro, Manuel João e Damião Cardoso.
Comecemos pelo primeiro, ‘descoberto’ por muitos dos participantes na paragem em Tabuaço, a primeira do dia depois de uma agradável passagem pela N222 junto ao Rio Douro, aproveitando uma manhã soberba para a ‘prática da modalidade’. Um homem genial, muito à frente no seu tempo, e que, apesar de ter ‘apenas’ a 4ª classe, criou, ao longo de 28 anos de dedicação e mais de 16 mil horas investidas, o “exemplar de relojoaria mais completo, complexo, exótico e insólito que se conhece”. Um relógio dividido em quatro partes interligadas e que funcionavam em uníssono, autênticos armários com mais de dois metros de altura e 150 kg de peso, 45 mostradores e que estava programado para funcionar durante 10 mil séculos, em ciclos de 6272 anos! Chama-se RIJOMAX, um acrónimo do nome do fundador que, pouco antes de falecer, aos 90 anos, o vendeu à Câmara Municipal de Tabuaço em 2002, atraindo anualmente milhares de visitantes à Loja Interativa de Turismo. E isto, note-se, sem sequer funcionar!
Tudo porque o segredo parece ter sido perdido quando o relógio, chamemos-lhe assim para simplificar, foi desligado para ser mudado de local. É que, apesar das muitas notas e informações deixadas pelo génio criador, nunca mais deu horas. Vieram os melhores especialistas e os mais renomados relojoeiros de todo o Mundo e nenhum conseguiu descortinar o segredo de tamanha complicação. “Genial”, disseram os suíços. “Vraiment unique”, acrescentaram os franceses. “Fabulous”, remataram os ingleses. Mas colocar o RIJOMAX de novo em funcionamento, isso era outra história.
E assim se quedou, mudo e quedo, o mais espetacular relógio do Mundo, deixando a léguas o condecorado Orloj, o Relógio Astronómico de Praga, ou o Zytglogge, a Torre do Relógio de Berna. Um aparato que, além das horas em Portugal e em todos os países do Mundo, indicava os movimentos do Sol e da Lua, o nascer e o pôr do sol, o dia e a noite (e a duração em horas e minutos de cada um ao longo do ano), os dias da semana, os meses, as estações, os signos, os semestres e trimestres e tanto, mas tanto mais que por aqui ficaríamos horas a falar deste invento único.
O espanto do campeão
Quem ficou rendido a esta complicação foi Manuel João, ex-campeão Nacional de Superbikes, em 1993, 94, 95, 97 e 98, além de resultados de destaque em provas do Mundial de TT, em Vila Real, ou no GP de Macau. Habituado a máquinas mais simples mas muito mais rápidas, regressou à estrada com uma imaculada Kawasaki Z900, “comprada em 1974, quando tinha 23 anos, por 80 contos” (mais de 24 ordenados mínimos à época!). A mesma moto com que, “depois de muitas loucuras, próprias de uma juventude irrequieta” foi o transporte eleito para a viagem de lua de mel, até Paris. “Foram 15 dias de uma viagem estupenda, com o regresso pelo sul de Espanha e com a Paula encostada a uma roda de mota comprada em França a pedido de um amigo”. A esposa, senhora de uma cumplicidade que dura há 47 anos, acenava que sim e recordava com detalhe a epopeia enquanto tiravam mais umas quantas fotografias junto ao lago da barragem de Vilar.
Conhecedor do Portugal de Lés-a-Lés de há longa data, descobriu este ano a versão Classic e ficou “encantado, não só pela possibilidade de apreciar motos clássicas como conversar com amigos de longa data e outros mais recentes”, aproximados pelo gosto por máquinas de outros tempos.
Joias como as que foi vendo na estrada, ao longo de cerca de 150 km da etapa, como também as que apreciou no museu particular de Damião Cardoso. Uma coleção começada há 44 anos, “aos 16 anos de idade ao recupera a minha primeira moto, uma CZ com que o pai de deslocava para namorar a mãe”, recorda o colecionador. Que, sempre simpático e solícito, foi repetindo a história e várias estórias aos entusiasmados visitantes, respondendo a todas as questões com um brilho especial nos olhos.
“Uma coleção iniciada do zero e que conta com cerca de duas centenas de máquinas, a maioria dos anos 1970 e 80, embora haja relíquias da década de 1940 espalhadas ao longo de cinco espaços, “alguns que eram antigas lojas de vacas da casa rural de família, sempre ligada à agricultura”. Mostrando dotes de bom comunicador e um grande entusiasmo, Damião Cardoso cativava os curiosos participantes no Portugal de Lés-a-Lés Classic que pareciam não quererem abandonar um espaço recheado de tantos sonhos.
Tanto mais que já estavam em São Pedro do Sul, término da segunda etapa num ano em que o figurino do evento levado a cabo pela Federação de Motociclismo de Portugal foi alterado, cumprindo mais quilómetros antes do almoço para depois fazer a digestão da magnífica sopa de peixe e da estupenda feijoada do mar confecionada pela equipa organizativa nos claustros do edifício dos Paços do Concelho, instalado desde 1842 no antigo Convento dos Franciscanos, edifício histórico fundado em 1751.
E do largo fronteiro à Câmara partirão para a segunda etapa, numa ligação de 140 km até ao Caramulo, com passagem pelas serras de Arada (com direito a uma impressionante subida ao alto de São Macário e à travessia do Portal do Inferno), mas também da Freita e do Caramulo.
O Gabinete de Imprensa
Portugal de Lés-a-Lés
Mau tempo não roubou sorrisos no 2.º dia do Portugal de Lés-a-Lés Classic
O nevoeiro que escondeu a descida ao Inferno
Se é verdade que nem sempre as etapas mais curtas são as mais fáceis, não menos verdade é que são os imponderáveis que tornam uma jornada inesquecível. Foram apenas 140 km entre S. Pedro do Sul e o Caramulo, mas pontilhados por subidas exigentes e descidas de respeito, pela passagem nas estreitas ruas empedradas de algumas aldeias e em estradas deixadas em muito mau estado pelas tempestades. Tudo num dia, o segundo do Portugal de Lés-a-Lés Classic, marcado por chuva a 2 Tempos. Ora assim-assim, ora bastante intensa! E sempre com bastante nevoeiro à mistura, que roubou em espetacularidade (no Alto de S. Macário ou no Portal do Inferno) o que devolveu em exigência e prazer de superação.
Uma etapa montanhosa, entre as serras da Arada, Freita e Caramulo que pôs à prova não só os motores das mais respeitáveis senhoras como acima de tudo, os travões. Cenário quase dantesco que não intimidou o experiente Hélder Alves, conhecedor das exigências do Portugal de Lés-a-Lés, com 15 presenças entre a versão de estrada e o Classic, sempre com a Jawa Perak 250 de 1950. “Uma moto que não dá problemas e resiste aos tratamentos mais duros sem queixas. Este ano nem uma vela isolada, nada!” garantia enquanto sacudia a muita água do fato de chuva.
Equipamento que vestiu logo de manhã, à saída de São Pedro do Sul, desfazendo as dúvidas existenciais que se multiplicavam numa manhã ameaçadora, com céu bem escuro e temperaturas muito mais frescas que na véspera. E se houve corajosos que acharam desnecessário vestir o impermeável, logo haveriam de se arrepender, obrigados a parar poucos quilómetros andados, ainda antes de uma pequena mas íngreme subida, em paralelo muito escorregadio. Dificuldade que ajudou a despertar aqueles que ainda estavam meio adormecidos, obrigando a atenção acrescida e alguma perícia para suprir a falta de modernos sistemas eletrónicos como o controlo de tração ou a ajuda ao arranque em subida.
Nada de verdadeiramente problemático embora o elevado peso de algumas ‘damas’ aconselhasse os condutores em dificuldades a pousarem as máquinas no chão com a maior suavidade possível, mesmo que não evitassem uma manete partida ou um espelho estalado. Mais complicadas foram mesmo as primeiras subidas à serra da Arada, testando o fôlego das ‘velhas senhoras’ por entre paisagens marcadas pelos violentos incêndios de 2024 e pelo ‘comboio de tempestades’ no início deste ano. Que também deixaram em muito mau estado a estrada rumo ao Alto de S Macário, com autênticas crateras que obrigavam os motociclistas (e alguns afoitos ciclistas indiferentes à intempérie…) a verdadeiras gincanas para não estragar rodas e pneus. Uma subida infrutífera em termos turísticos já que, de tão cerrado, o nevoeiro não deixava vislumbrar mais do que umas poucas dezenas de metros, escondendo uma paisagem deslumbrante, mas criando um misticismo ímpar.
A paragem obrigatória em Ponte de Telhe
Com subidas que faziam penar os motores das pequenas ‘cinquentinhas’ e descidas que a todos aconselhavam calma com os travões, foi quase imediata a passagem entre as serras da Arada e da Freita. Aliás muitos nem dariam pela passagem entre as duas não fosse a travessia do Portal do Inferno e paragem no Café Rochas, na pequena aldeia de Ponte de Telhe onde umas sandes de presunto e uns cafés serviram para confraternizar e para combater o frio. Temperaturas baixas que exponenciavam o desconforto da chuva e que fizeram questão de acompanhar a caravana durante todo o dia, lado a lado com o nevoeiro, garantindo um espetáculo que só as serranias podem oferecer.
Um show que encantou Daniel e Maria Teresa Fernandez, rendidos à brutalidade das paisagens e impressionados com a lenda do Portal do Inferno e Garra, onde o diabo está à espera de apanhar os mais incautos e onde “o morto matou o vivo”, aludindo a um acidente durante o transporte de uma urna fúnebre por aquele caminho. De olhos arregalados lá continuaram os espanhóis de Santander numa estreia abençoada (de tão molhada que foi…) no evento organizado pela Federação de Motociclismo de Portugal aos comandos das Moto Guzzi V50 e Monza. “Encantados com o percurso, apesar do nevoeiro, e particularmente agradados com os pormenores organizativos” este casal do Moto Club Pistón elogiava a quantidade e qualidade das motos presentes com conhecimento de causa. É que ajudam a organizar, anualmente e desde há muito tempo, dois grandes eventos para motos clássicas. Um para máquinas anteriores a 1995, no primeiro fim de semana de junho, a XXVI Vuelta a Cantabria, e outro, bem maior, para motos fabricadas até 1980, de 20 a 27 de setembro, o Picos Tour & XXXIX Piston Rally, que costuma reunir mais de 600 participantes, oferecendo percursos diferentes todos os dias, entre a Cantábria e as Astúrias.
Tesouros para todos os gostos
Sem medo à chuva, zombando do mau tempo com sorrisos de genuína diversão, a caravana abordou a terceira serra do dia a caminho do destino final: o Caramulo, famoso pelas paisagens e pelo Museu frente ao qual terminaria a etapa, depois de um almoço servido no Caramulo Experience Center, com vistas sobre vários carros em fase de restauro.
Para ajudar à digestão do caldo verde e do saboroso frango com esparguete, nada como a visita ao Museu do Caramulo, criado pelos irmãos Abel e João de Lacerda em 1953, apreciando parte dos 500 objetos de arte que vão dos quadros de Pablo Picasso, Salvador Dali, Amadeo Souza Cardoso ou Maria Helena Vieira da Silva, até esculturas, mobiliário, cerâmica e tapeçarias, colecionados por Abel, a que se juntam os automóveis que apaixonaram o irmão João. Um espaço onde os ‘fórmulas’ de Emerson Fittipaldi rivalizaram em atenção com as pioneiras FN 2 ½ HP e a NSU Twin Roadster, ambas de 1911, e a mais recente, mas não menos icónica, Honda NR750 caracterizada pela exclusividade dos pistões ovais.
Oportunidade ímpar de visitar o Museu do Caramulo, motivo para continuar a conversa sobre motos antigas, e que deixou todos particularmente agradados, quase esquecendo a grande molha que obrigou a trabalhos acrescidos para secar os equipamentos. E assim recuperar a proteção e conforto necessário para a última tirada do Portugal de Lés-a-Lés Classic, com destino a Anadia e ao Museu 2 Rodas, instalado no Centro de Alto Rendimento, em Sangalhos.
O Gabinete de Imprensa
Portugal de Lés-a-Lés
O sol que cria o bom vinho da Bairrada saudou os resistentes do 2.º Portugal de Lés-a-Lés Classic
Meteorologia colocou ‘clássicas’ à prova
Foi um ‘dia de brincadeiras’, o terceiro e último do 2.º Portugal de Lés-a-Lés Classic, que levou centena e meia de motociclistas do Caramulo a Sangalhos, na Anadia, com a chuva a tentar apanhar os participantes enquanto o sol ia furando as nuvens para indicar o melhor caminho. Neste ‘jogo do apanha’ conseguiram quase todos fugir às grandes bátegas de água que, a espaços, caíam do céu plúmbeo, enquanto outros, mais azarados, iam desfrutando como podiam de um percurso trabalhoso, mas bonito e variado, e que começou de forma bem desportiva.
A saída, mesmo em frente ao Museu do Caramulo, deu-se pela famosa rampa que, todos os anos, atrai centenas de veículos históricos, de competição e não só, para um festival único no País. Asfalto lisinho numa estrada bem marcada que motivou algumas aceleradelas madrugadoras, mas apenas para os mais afoitos já que, pouco à frente, estava a saída para caminhos mais revirados. Sim, que isto não é uma corrida!
Se bem que, olhando para a lista de presenças, da rara Yamaha SDR200 à popular Suzuki GSX-R750 R, passando pela muito amada Yamaha RD350, pela esplêndida Suzuki RGV250 ou pela raríssima Yamaha RZV500 R, facilmente poderíamos compor uma bem recheada grelha de partida. Que também teve o contributo de Celso Mendes, alinhando para a derradeira etapa aos comandos de uma Honda CBR600F de 1994. Isto porque, com o evento da Federação de Motociclismo de Portugal a decorrer mais perto de casa, foi todos os dias a Santa Maria da Feira para trocar… de moto.
“No dia das Verificações, em Lamego, foi uma Honda VF1000 R de 1985, que foi substituída por uma Yamaha YZF 750 de 1994 para a primeira etapa e depois pela pequena, mas aguerrida, Honda NSR 125 de 1992”. Comentário divertido enquanto garantia que “a escolha não foi fácil até porque há mais 30 motos na garagem”, muitas delas cumprindo a exigência regulamentar de terem mais de 30 anos. “Em 2025 a opção foi ainda mais complicada porque apenas foram utilizadas duas máquinas, aproveitando este fantástico evento para fazer mais quilómetros com as clássicas lá de casa”.
No entanto, no Regulamento do Portugal de Lés-a-Lés Classic, há uma exceção no que toca ao ano de fabrico da moto. Que deve ser igual ou anterior a 1996, a menos que a soma das idades da moto e do condutor seja superior à centena. Pois bem, João Ferreira trouxe desde as Caldas da Rainha uma Harley-Davidson 883 cujo livrete diz que foi matriculada na viragem do milénio. Ou seja, com escassos 26 anos de estrada a que este entusiasta viajante juntou os seus 80 para ultrapassar a centenária marca exigida pelo parágrafo 3.1 das normas do evento.
Tão fiel quanto a esposa (que partilha a paixão!)
Apesar de até ter outras mais antigas em casa, esta Harley é muito especial e “apesar de algo pesada (mais de 250 kg), é uma companhia muito fiel. Com ela, a moto, e com a esposa, atravessou “mais de uma dúzia de países, de Portugal à Polónia, com passagem, entre outros pela Hungria, Eslováquia, Eslovénia ou Itália, fazendo 8283 quilómetros ao longo de três semanas bem animadas, na companhia da filha e do genro. Era com eles que gostava de ir até ao Cabo Norte, mas o genro não consegue ter um mês seguido de férias” vai dizendo enquanto o sempre bem-disposto sorriso parece desaparecer momentaneamente do rosto. Para logo regressar, ao olhar para o filho Nélson, que, depois de “ter gostado tanto de estar na primeira edição”, desafiou o pai para este Lés-a-Lés Classic.
“A maior dificuldade são as passagens pelos pisos empedrados no interior de algumas aldeias e sobretudo as paragens” conta o filho, para logo acrescentar que “depois de estar na estrada, não tem qualquer problema com os quilómetros ou a chuva. Afinal, toda a vida andou de moto e vai continuar a fazê-lo”. Vá lá que, ao longo desta terceira etapa, não foram muitas as passagens em paralelos irregulares e escorregadios, mas abundaram estradas municipais cheias de curvas por entre eucaliptais, sobretudo no concelho de Águeda, algumas com piso menos bom, com buracos a alternarem com a terra e folhas que a chuva vai trazendo para esconder o asfalto.
Bem mais interessante foi a passagem pela bela e divertida N16, onde todos desfrutaram da condução apesar da preocupação em tentar escapar por entre os pingos da chuva, olhando sempre com alguma apreensão para as nuvens mais escuras que iam assomando no horizonte. Que o digam António Pego e Fernando da Costa, dois figueirenses rendidos ao charme da Vespa. A trabalhar no Luxemburgo, “houve que aproveitar 15 dias de férias para meter as motos numa carrinha e vir até Portugal dar umas voltas”, contava o mais falador António, nada incomodado pelo facto de ter chegado à Anadia com a Vespa PX200 no reboque da organização.
Afinal, “um problema num retentor do motor a poucos quilómetros do final, já depois da passagem pela Ria de Aveiro e pelas tradicionais casas coloridas da Costa Nova, não podia estragar a festa”, nem fazer perder a visita ao Museu 2 Rodas, instalado no Centro de Alto Rendimento. “Espaço bonito e que mostra, de forma fácil de seguir, boa parte da história das motos em Portugal” e onde prometem trazer os amigos ‘luxemburgueses’. Que é como quem diz, portugueses, franceses e italianos a viver naquele Grão-Ducado.
E enquanto acabavam de saborear um muito bem conseguido chili e uma sopa de agrião, os elementos do Vespa Club Roude Léiw Lëtzbuerg preparavam-se para descer os degraus até ao Museu do Vinho Bairrada, prontos a descobrir os segredos do que acabavam de beber. Pelo meio iam garantindo que sim, que vão voltar em 2027, com mais amigos adeptos das Vespa clássicas e a certeza de que o Portugal de Lés-a-Lés Classic “é dos eventos do género mais bem organizados da Europa”. Ahhh… E o Lobo e a menina dos olhos verdes também chegaram, sem problemas, à Anadia e juraram que “para o ano há mais!”
O Gabinete de Imprensa
Portugal de Lés-a-Lés
Ministra do Ambiente agradece entusiasmo pela Reflorestação de Portugal de Lés-a-Lés
Foi com a presença da Ministra do Ambiente e da Energia, Maria da Graça Carvalho, à chegada do Portugal de Lés-a-Lés Off-Road em Lagoa, que terminou a 10ª edição da grande aventura off-road da FMP.
Conhecedora do êxito da campanha de sensibilização Reflorestar Portugal de Lés-a-Lés, a ministra do Ambiente e da Energia marcou presença no final do 10º Portugal de Lés-a-Lés Off-Road, em Lagoa. Na chegada dos aventureiros que, ao longo de três dias ligaram Chaves à costa algarvia, Maria da Graça Carvalho elogiou “a iniciativa da Federação de Motociclismo de Portugal que vai muito além da compensação do CO2 emitidos por estes veículos, mostrando um amor pela natureza e um grande empenho em protegê-la. Sobretudo num ano tão difícil como este, em que muita da nossa floresta ardeu, tal como parte dos nossos parques e áreas protegidas, do mais bonito que temos na natureza em Portugal”.
Recebida pelo presidente da Direção da FMP, Armando Marques, e pelo responsável da Comissão de Mototurismo da FMP, António Manuel Francisco, Maria da Graça Carvalho sublinhou ainda “o importante papel dos motociclistas como veículo de comunicação com os jovens, sendo que a mensagem entra mais depressa do que a dos políticos”. Mostrando “muito gosto e satisfação ao ver que esta iniciativa vai parando nas escolas e junto de escuteiros”, a governante enalteceu o facto de os motociclistas estarem, desta forma, “a incutir já o amor pela natureza, pela paisagem e pela biodiversidade aos mais jovens, pelo que o Governo se associa, através do Fundo Ambiental, para ajudar a continuar a reflorestar Portugal, a amar a natureza e a passar a mensagem para os mais jovens”.
Uma presença que reforçou o entusiasmo dos participantes na defesa da floresta e que foi antecedida de uma ação de sensibilização junto dos Agrupamentos de Escuteiros do Parchal e Estombar que, além de uma palestra sobre as vantagens das árvores autóctones, contemplou a plantação de seis sobreiros.
O Gabinete de Imprensa
Portugal de Lés-a-Lés
Caravana internacional do Lés-a-Lés Off-Road liga Chaves a Penamacor em ambiente de grande festa
Bilhete para um Portugal apaixonante onde nem faltam ‘noivas da floresta’
São cada vez mais os estrangeiros que declaram abertamente o seu amor ao nosso País. Entre os que chegam para trabalhar ou para desfrutar do merecido descanso depois de uma vida de labor. E há aqueles que, por um motivo ou por outro, vão descobrindo os encantos deste ‘cantinho à beira-mar plantado’, acabando por render-se a uma paixão que se vai entranhando, para cá mudando ‘de armas e bagagens’.
Vem isto a propósito do número crescente de estrangeiros que apostam em descobrir as paisagens e pessoas, a natureza e gastronomia, os trilhos e os miradouros de norte a sul, utilizando o Portugal de Lés-a-Lés Off-Road como bilhete de entrada numa aventura ímpar. Na 10.º edição do evento organizado pela Federação de Motociclismo de Portugal, muitas eram os idiomas ouvidos no Parque das Termas, em Chaves, onde, com o apoio do Grupo Motard de Chaves, a Comissão de Mototurismo da FMP instalou o local das Verificações Técnicas e Documentais.
Fosse em inglês (mais britânico, irlandês ou americano) ou ucraniano; francês (com sotaque de França, Bélgica ou Luxemburgo) ou neerlandês; espanhol (seja da vizinha Espanha ou do México) ou alemão; algumas palavras sobressaiam pela intensidade com que eram ditas. Sol, paisagens bonitas, boa comida ou simpatia foram termos também repetidos na conversa com os belgas Vincent Lepiece e Sebastian Henriche. E se este já está rendido aos encantos nacionais, tendo mesmo comprado uma casa em Loulé, o primeiro está a pensar mudar-se “com a mulher e os 3 filhos para aproveitar o bom tempo todo o ano, a tranquilidade e a boa comida. E poder ver os filhos a crescer num ambiente seguro. Uma mudança que ainda não se concretizou apenas porque o negócio de montagem de sistemas elétricos e de aquecimento vai muito bem e há que preparar os muitos colaboradores da empresa”.
Com duas Gas Gas EC 350F “leves e divertidas mas de autonomia algo curta”, esperam “voltar a encontrar, tal como no ano passado, muitos locais bonitos, poder conviver com as pessoas nos locais que vamos atravessando e desfrutar de uma boa passeata de moto”.
E, tal como todos os outros participantes, dos quatro cantos do Mundo, vão enfrentar 334 quilómetros entre Chaves, de onde começam a partir às 7 horas, e Penamacor, com chegadas por voltas das 17 h. Um dia longo através das paisagens transmontanas, durienses e beirãs, sem grandes obstáculos no percurso, mas com exigência de um ritmo vivo e poupança nas paragens. Tanto mais que a noite já começa a chegar cedo nesta altura do ano e rolar de noite em fora-de-estrada é tudo menos aconselhável.
Crianças flavienses plantaram bétula no pátio da escola
Lado a lado com a aventura mototurística que atravessa o mapa nacional de norte a sul, continua a campanha Reflorestar Portugal de Lés-a-Lés que visa sensibilizar as populações, sobretudo os mais jovens, para a necessidade de uma adequada renovação da floresta nacional. Foi o caso das duas centenas de alunos das nove turmas do primeiro ciclo da Escola do Ensino Básico Dr. Francisco Gonçalves Carneiro que aprenderam a importância da biodiversidade nas florestas e as vantagens das árvores autóctones. Da melhor adaptação aos solos e climas, à defesa natural em caso de incêndio, passando pela renovação do ar e manutenção de linhas águas, de tudo foi explicado às crianças que, plenas de curiosidade, participaram ativamente com as mais diversas questões.
E no final da iniciativa que conta com o apoio do Instituto de Conservação da Natureza e da Floresta (ICNF) e que teve no engenheiro Carlos Silva um excelente comunicador, foi plantada uma bétula no pátio da escola. Uma árvore da família Betulaceae que é conhecida por outros nomes como bidoeiro ou, imagine-se, mais popularmente como ‘noiva da floresta’. Porquê?, perguntarão. Pelo simples facto de, quando adulta, esta árvore apresentar uma casca branca acentuando o contraste com a maioria das companheiras da floresta, vestidas em tons de castanho ou verde. E assim se vai conhecendo melhor a floresta portuguesa…
O Gabinete de Imprensa
Portugal de Lés-a-Lés
Variedade de percurso e beleza de paisagens marcou 1.ª etapa do Portugal de Lés-a-Lés Off-Road
Promessas cumpridas, expetativas superadas
A organização tinha prometido um percurso exigente mas bonito, com pouco asfalto e muita diversão ao longo de 334 quilómetros entre Chaves e Penamacor. Mas, no final da primeira etapa do 10.º Portugal de Lés-a-Lés Off-Road, os sorrisos após um dia desafiante e bem passado ultrapassavam, largamente, as marcas da fadiga de uma tirada bastante variada e fisicamente desgastante. Diversidade de percursos e de pisos que estava bem patente, e de forma curiosa, nos tons do pó acumulado no rosto dos aventureiros.
Para começar, os cerca de 250 mototuristas que se lançaram à estrada – ou melhor, para fora-de-estrada – ao raiar do dia, deliciaram-se com caminhos de enorme carga cénica, entre castanheiros e muros centenários, cujo pó fora, felizmente, acalmado pela humidade noturna. Haverá melhor forma de começar o dia? A resposta foi dada pelos sorrisos na primeira paragem do dia, no Oásis preparado pela Jomotos logo a seguir à região aurífera de Jales, explorada desde o tempo dos romanos. Entre uma trinca numa maçã ou numa barra de cereais e um gole de água fresca, partilhavam-se as mais madrugadoras peripécias, num dia que começara fresquinho, mas que prometia temperaturas elevadas.
Um trajeto rolante e divertido, com terra ora mais dura ora mais arenosa, aqui e ali com um pouco mais de pedra solta, mas sem dificuldades de maior. E sempre com ligações muito pequenas em asfalto, permitindo aos adeptos do todo-o-terreno fazer aquilo que mais gostam...
Panorama que não se alterou quando os soutos e carvalhais transmontanos começaram a ceder lugar aos vinhedos do Douro Internacional, com a diferença de pisos a acompanhar as mudanças na paisagem. Uma Região Demarcada vitivinícola – a mais antiga do Mundo, nunca é demais referi-lo – que mostrou a faceta mais conhecida dos turistas, com vinhas a perder de vista, numa paleta de cores que vai mudando entre o verde e o dourado, passando por vários tons avermelhados e de castanhos agora que as vindimas estão feitas.
Mas, bastou fugir das famosa N222 e atravessar o rio Távora rumo a Tabuaço, para revelar, também, uma parte menos conhecida, atravessando aldeias fora das rotas ‘mercantis’, o Douro genuíno, dos trabalhadores e das gentes da terra que não hesita em assar uns pimentos no meio da rua e convidar os motociclistas mais extrovertidos a parar ‘para um copo’.
São assim as gentes deste Portugal verdadeiro que o Lés-a-Lés, nas suas diferentes versões, procura mostrar desde 1999 e que tanto agrada e continua a surpreender os mototuristas nacionais como os estrangeiros.
Acreditar no futuro da floresta
Uma primeira parte do percurso maravilhosa que seria depois, e apesar dos esforços dos elementos da Comissão de Mototurismo da FMP, ensombrado pelas paisagens calcinadas até depois de Sernancelhe onde todos pararam para mais um reforço alimentar. E que reforço! Do menu constava caldo verde, salada e feijão frade, ovos mexidos com enchidos ou com cogumelos, bifanas e cachorros, e muita fruta, das bananas às laranjas, passando pelas maçãs e deliciosas peras.
Paragem que revelou o bem-estar generalizado da caravana e que nem o negrume ou as dificuldades em ver o percurso nas zonas queimadas e, por vezes, mesmo de respirar, conseguiu destruir. Um triste espetáculo que tocou profundamente o estreante Bruno Oliveira, engenheiro biólogo de formação, que estava “a viver uma grande aventura, até porque nunca andara no monte durante tantos quilómetros”.
A maior curiosidade desta presença passava pela companhia do pai, o bem conhecido António Oliveira, pluricampeão Nacional de Motocrosse e Enduro e participante assíduo deste evento, que “há muito tempo o tentava convencer a participar no Lés-a-Lés Off-Road. Mas por um motivo ou por outro, normalmente impedimentos profissionais, nunca tinha participado. Além de, ao contrário do irmão (Luís, acumulador de títulos de enduro e motocrosse) nunca ter feito competição e por isso ter um ritmo mais… turístico”.
Super satisfeitos na chegada a Penamacor, eram, afinal, o espelho de um pelotão cansado, mas feliz, com ‘tratamento de pele’ que juntava agora o pó beirão. “Um espetáculo de percurso! Paisagens soberbas! A melhor etapa de sempre no Lés-a-Lés Off-Road!” foram apenas alguns dos muitos comentários de regozijo ouvidos no Terreiro de Santo António, mesmo junto à Câmara Municipal de Penamacor e com o castelo templário e a torre de vigia em pano de fundo.
Comentários que no futuro e com o apoio da campanha de sensibilização Reflorestar Portugal de Lés-a-Lés poderão ser ainda mais expressivos. É que a iniciativa lançada em 2017 pela FMP tem levado ensinamentos sobre a melhor forma de recuperar as áreas ardidas, com recurso à plantação de árvores autóctones. Como aconteceu em Penamacor onde quase centena e meia de crianças do ensino básico ouviram atentamente as explicações sobre as vantagens de optar pelas árvores locais no processo de reflorestação, antes de plantarem três medronheiros e dois sobreiros no pátio da escola. Iniciativa que contou com enorme entusiasmo da edilidade local, marcando presença com as responsáveis florestais e uma equipa de jardineiros municipais, preparando terreno para uma plantação significativa no final do outono.
Campanha que continua amanhã, em Reguengos de Monsaraz, ponto de chegada da segunda etapa do Portugal de Lés-a-Lés Off-Road, após os 337 quilómetros da longa ligação desde Penamacor
O Gabinete de Imprensa
Portugal de Lés-a-Lés
Depois da tempestade… o Alentejo
Um Portugal de Lés-a-Lés não é ‘apenas’ uma aventura na travessia do mapa continental, mas também – e sobretudo! – um amplo somatório de histórias e experiências que enriquecem as vivências dos participantes. E como qualquer história que se preze, também o 10.º Portugal de Lés-a-Lés Off-Road tem reis e rainhas, fadas e duendes, diabinhos e anjos. Sim, ‘anjos’ que voam sobre os caminhos de terra para proteger a caravana, sem as celestiais vestes brancas, é certo, antes se distinguindo pelos coletes fluorescentes e a cruz vermelha que ostentam também nos plásticos das Yamaha Ténéré 700 Rally.
São os elementos da Moto Emergência que depois de um primeiro dia particularmente trabalhoso, por força de um percurso longo e muito exigente, tiveram uma segunda etapa, entre Penamacor e Reguengos de Monsaraz, bem mais calma. “Talvez devido ao cansaço acumulado na ligação desde Chaves, muitos participantes tenham optado por um ritmo mais conservador ou mesmo por alguns atalhos por estrada para poupar o físico e ganhar tempo”. O comentário de Luís Isqueiro, coordenador da assistência médica desde há muitas edições do Lés-a-Lés, é, por isso mesmo, uma opinião conhecedora de toda a envolvente de segurança do evento organizado pela Federação de Motociclismo de Portugal.
Para o 10.º Portugal de Lés-a-Lés Off-Road a maior alteração na equipa de auxílio médico prendeu-se com a utilização de cinco motos iguais, cedidas pela Yamaha Motor Portugal, juntando à eficácia de sempre uma imagem que os torna facilmente identificáveis dentro da colorida caravana. Uma equipa que, além das motos conduzidas por Pedro Pereira, Filipe Garcia, João Melo, Bruno Alves e André Gonçalves, conta com outros três elementos (Fernando Magalhães e Ivo Silva além do próprio Luís Isqueiro) em dois veículos 4x4 para garantir a segurança, em todos os momentos, com uma logística que permite acompanhar e intervir em poucos minutos em qualquer ponto do percurso. O ‘truque’ é um sistema de ‘tracking’, monitorizado pelo coordenador que segue num dos veículos de quatro rodas, que indica onde está cada um dos ‘anjos’ e assim sabendo qual o elemento mais rápido a chegar a uma situação de emergência.
Com uma imagem ainda mais visível e distinta, conferindo acrescida sensação de segurança a todo o pelotão, os técnicos de emergência prestam o primeiro socorro a qualquer um que sofra um acidente – que, nestas coisas de aventura, estão sempre à espreita… – e são uma mais-valia deste evento, deixando surpreendidos os estreantes e os muitos estrangeiros que integram a caravana.
A sopa, o pudim e as massagens
Estrangeiros que também não escondem o espanto perante a as marquesas da equipa de terapeutas e osteopatas, sempre prontos a remediar algumas lesões contraídas durante as etapas. Autênticas ‘mãos de fada’ dos elementos da Osteomotus cujo trabalho é também um excelente barómetro da exigência de cada tirada. Basta ver que no primeiro dia a Adriana Duarte, o Edgar Valente, o Miguel Roseta e o Rui Soares contribuíram para o bem-estar de mais de 40 participantes, número que baixou de forma notória na chegada a Reguengos de Monsaraz. Lesões musculares e pequenos entorses, pancadas sofridas nos dedos e mãos ou dores lombares são as queixas mais frequentes entre os aventureiros do Lés-a-Lés Off-Road. Que ontem até pouparam o físico na parte final da tirada, obrigados a desviar por estrada asfaltada devido a um portão de uma herdade fechado com um enorme cadeado. E isto depois de, durante o dia, todos os participantes terem demonstrado inatacável sentido cívico, fechando todas as cancelas atravessadas pelo percurso.
Tudo isto num dia em que os 337 quilómetros de percurso, maioritariamente em pisos rolantes, mas com bastante pó e algumas zonas técnicas, foram entrecortados por umas quantas ligações em asfalto bem como as sempre esperadas paragens nos Oásis. A meio da manhã, no espaço montado pela Yamaha na aldeia de Perais, um pouco antes de Vila Velha de Rodão, tempo para uma água, uma peça de fruta e uma barra de cereais, antes do lauto e variado menu servido pela multifacetada equipa de cozinheiros da FMP em frente ao castelo de Alter do Chão. Saladas, sopa, carnes e fruta variada foram ementa a que ninguém pôs defeito...
Aliás, a questão da alimentação tem sido comentada de forma muito positiva pelos participantes, recordando, entre outras refeições, o excelente jantar em Penamacor com entradas quentes, queijos, sopa, saladas, carne de porco à alentejana e, para sobremesa, opção entre um delicioso pudim caseiro e melão bem fresco.
Uma curiosa herança para usar no TT
Refeições que têm feito as delícias de todos os motociclistas, os portugueses e os muitos estrangeiros presentes, como é o caso de Charlie Woods e do namorado Dylan Farminer que, juntamente com o padrasto da primeira, Mark Stride, formam a equipa… Charlie’s Angels. Que, para que se perceba o total envolvimento da família, contam com o apoio da matriarca na condução da autocaravana com que viajaram desde Exeter e Southampton, bem no sul de Inglaterra.
E que traziam uma história curiosa para contar. Charlie e Mark estiveram no 7.º Portugal de Lés-a-Lés Off-Road, em 2022 e com eles era suposto ter vindo um amigo muito próximo. Que viria a falecer devido a doença, pouco tempo depois, deixando em testamento a sua Triumph Tiger 1200 ao amigo de longa data, com o desejo expresso de que a usasse em fora-de-estrada e, quando estivesse cansado da moto, a vendesse, revertendo então a verba para a viúva. Como o padrasto de Charlie enfrenta, também ele, um processo degenerativo, o namorado comprou a Tiger, mantendo em casa a ‘joia da família’ e estreando-se em Portugal na condução ‘off-road’. Sem grande experiência no TT, vai tentando acompanhar a mais expedita namorada e utilizando a boa compleição física para ajudar a levantar a Yamaha XT660 quando surge algum percalço.
O sentido da reflorestação com espécies autóctones
Lado a lado com o evento mototurístico anda a 7.ª edição da campanha Reflorestar Portugal de Lés-a-Lés, ensinando às populações, sobretudo às crianças mais jovens, as vantagens em plantar árvores de espécies autóctones. Depois de Chaves e Penamacor, foi a vez da Escola Básica de Perolivas e da Escola EB1 de Campinho onde alunos do 1.º Ciclo ouviram atentamente todas as explicações sobre a iniciativa de sensibilização e participaram ativamente na plantação de um freixo no pátio das escolas. Uma campanha que mais do que simplesmente alertar para os maiores cuidados a ter na reflorestação das áreas ardidas, vai prosseguir no terreno, durante os meses mais propícios ao plantio de árvores, em função da espécie e da região.
Como sucederá também em Lagoa, onde serão entregues algumas árvores no dia em que termina o 10.º Portugal de Lés-a-Lés, com a ligação desde Reguengos de Monsaraz a contabilizar 313 quilómetros, variando entre as típicas paisagens alentejanas e as exigências da serra algarvia.
O Gabinete de Imprensa
Portugal de Lés-a-Lés
Sorrisos genuínos foram a melhor paga para tamanha exigência
Destino turístico de excelência por força das mais de 30 praias, com tanto de sublime como de diversificado, Lagoa foi palco de eleição para a chegada do 10.º Portugal de Lés-a-Lés Off-Road depois de 984 quilómetros desde Chaves, com paragens em Penamacor e Reguengos de Monsaraz. Cenário perfeito para uma festa sublime, onde os rostos poeirentos não escondiam sorrisos genuínos e onde os abraços pela concretização da aventura e pela superação pessoal eram trocados de forma sentida. Afinal, a edição de 2025 da aventura mototurística organizada pela Federação de Motociclismo de Portugal teve tanto de beleza paisagística e de diversão, como de trilhos fisicamente exigentes, obrigando a gerir a energia para melhor desfrutar do passeio.
E se assim tinha sido nos dois primeiros dias, assim foi também na derradeira tirada, desde Reguengos de Monsaraz até ao Parque Municipal de Feiras e Exposições de Lagoa, o recinto bem conhecido por albergar desde 1980 a FATACIL, a maior feira de atividades económicas do Sul de Portugal. Um dia que começou com temperaturas amenas, bem mais baixas do que esperado, céu bastante encoberto e grande humidade, o que, não evitando algum pó nos rápidos estradões alentejanos, limitou a fadiga normalmente exponenciada pelo calor intenso.
Um percurso que permitiu olhar para as profundas mudanças da paisagem do Alentejo, atravessando o lago do Alqueva e comprovando a substituição gradual das tradicionais searas por culturas super intensivas, nomeadamente de olival. Tema de conversa no Oásis Honda, primeiro ponto do dia para ‘reabastecimento dos condutores’.
Junto ao campo de jogos José Agostinho de Matos e sem dispersar a atenção dos entusiasmados pais dos jovens jogadores do Clube Recreativo e Desportivo de Cabeça Gorda [Ferróbico], os aventureiros deliciaram-se com as já famosas Bolas de Berlim da Honda. Ou melhor, ícones da doçaria nacional que, não sendo fabricados pela marca japonesa, obrigaram a rigorosa ação logística para levantar os 350 bolos, acabadinhos de fazer na Fábrica de Bolos do Chile, às 5.30 h da madrugada, para os transportar ao longo de mais de 230 quilómetros desde a lisboeta Avenida Almirante Reis até ao Baixo Alentejo!
Moto híbrida de engenharia caseira
Mas, antes de provaram estas bombas calóricas – podiam sempre ficar-se por um banana e um café… – já os mototuristas tinham deixado para trás dezenas de quilómetros, maioritariamente em longas retas, por vezes com o piso bastante degradado, o que aumentou o cansaço dos participantes e criou alguns contratempos mecânicos. O que não foi o caso da mais bizarra máquina presente no 10.º Portugal de Lés-a-Lés Off-Road, uma irreconhecível Yamaha XT600, de 1999. Uma moto híbrida “feita com peças que estavam para lá, na garagem, como um depósito e o banco de uma Suzuki RMX, o amortecedor traseiro Öhlins de uma Yamaha TTR 600, uma roda traseira de supermotard com um gigantesco pneu 140/80 e um escape intermédio de um Citröen AX GT”. Obra dos tempos livres de Ramiro Ramos que faz mecânica como hobby, “gostando imenso de inventar e criar coisas diferentes com aquilo que tenho em casa, que não vou deitando fora. E mesmo se nem sempre fica mais económico, a verdade é que a diversão é muitíssimo maior e a dimensão do desafio do Lés-a-Lés Off-Roa também fica bem maior”, contava o alentejano de Ourique, que até aproveitou a proximidade para dar um saltinho a casa.
Ao lado desta genial peça de ‘engenharia-faça-você-mesmo’ quase desaparecia o brilho das mais recentes Husqvarna 701 ou Norden 901, Yamaha 700 Ténéré, KTM Adventure 690, Kove 800X Rally, CFMOTO 800X, Honda CRF1100 Africa Twin ou BMW F900GS, no espetacular almoço em Entradas… mas com direito a menu completo.
Felicidade na cozinha e no pórtico de chegada
Bem no coração desta quase deserta freguesia alentejana do concelho de Castro Verde, em pleno centro geográfico do Baixo Alentejo, com menos de 500 habitantes e uma média etária elevada, a ementa contempla uma portentosa sopa de feijão além de saladas, carnes e muita fruta, responsabilidade da experiente e extremamente eficaz equipa gastronómica da FMP, do mestre António José ao ‘chef’ Nuno Ribeiro, passando pelo José Polidoro, Catarina Sabino, Jorge Gameiro, Tó-Zé Fortes e Henrique Teixeira.
De barriguinha composta, tempo para os últimos cento e poucos quilómetros com direito a um inesperado desvio de última hora, por força de um portão encerrado pelo proprietário de uma herdade, logo após Castro Verde, que obrigou a caravana a seguir durante uns quilómetros por asfalto, através da mítica N2, até Rosário onde voltaram a integrar o traçado original. Um problema recorrente que vai exponenciando a dificuldade na travessia da caravana pelo Alentejo e que, por vezes, resulta da necessidade de proteção dos agricultores contra os furtos das produções de azeitona, fruta e até de animais.
Desvio que, por outro lado, até deu para aliviar os braços, antes da sempre variada travessia da serra algarvia, intervalando troços mais técnicos com estradões rápidos, e na chegada a Lagoa. Onde todos ficaram ainda mais felizes ao ver os sorrisos das meninas que dão uma animação especial ao pórtico de chegada, Lynn de Sousa, Vera Carvalhais, Luísa Castro e Rute Galego, sinal de haver terminado mais um Portugal de Lés-a-Lés Off-Road.
O Gabinete de Imprensa
Portugal de Lés-a-Lés











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