O Portugal de Lés-a-Lés é uma aventura anual mototurística que desde 1999 concilia a resistência física à vertente turística com o objectivo de cruzar Portugal de extremo a extremo contemplando paisagens e lugares de enorme esplendor. Aquela que se tornou a maior caravana mototurística do mundo passou agora também a pontuar para o World Touring Challenge da FIM!

 
7º Portugal de Lés-a-Lés Offroad (2022)
Mirandela - Tábua - Arronches - Vila Real de Sto. António
De 1 a 4 de Outubro de 2022
 

Estão oficialmente abertas as inscrições para o 7º Portugal de Lés-a-Lés Off Road 2022 que vai acontecer de 1 a 4 de Outubro. Todos os interessados em participar nesta grande aventura mototuristica já podem inscrever-se através do endereço www.les-a-les.com. As inscrições são limitadas e fecham a 15 de setembro ou antes, caso se esgotem como em anos anteriores.

O Lés-a-Lés Off-Road é feito à medida de todos, contudo a característica Off-Road deste tipo de aventura leva a que seja mais exigente para com o piloto e a máquina. Recomendamos por isso que os participantes tenham já alguma experiência em Off Road e noções básicas de mecânica, para desfrutarem ao máximo cada etapa desta grande aventura.

Programa:

Dia 1 – Mirandela - Check-In dos participantes

Dia 2 – 1ª Etapa – Mirandela > Tábua

Dia 3 – 2ª Etapa – Tábua > Arronches

Dia 4 – 3ª Etapa – Arronches > Vila Real de Santo António

Serviço de transporte de motos pode ser tratado através do e-mail: nunoleotte@gmail.com

Para mais esclarecimentos recomendamos a leitura do "Regulamento do 7º Portugal de Lés-a-Lés Off Road".

 
24º Portugal de Lés-a-Lés (2022)
De 9 a 12 de Junho de 2022

Canícula ampliou dureza do Lés-a-Lés mais exigente dos últimos anos

Paisagens turvas pelo calor escaldante

Já de olhos postos nas bodas de prata do Portugal de Lés-a-Lés, tempo para um balanço da 24.ª edição da aventura que, desde 1999, liga dois extremos do mapa nacional. Uma epopeia marcada pelo calor, muito calor, que acompanhou os 2400 participantes de Faro a Bragança, com paragem em Castelo de Vide e na Covilhã, reforçando a exigência da maratona mototurística. Que, recorde-se, atravessou mais de 40 concelhos ao longo dos 1256 quilómetros percorridos durante mais de 32 horas de condução.

O trajeto delineado pela Comissão de Mototurismo da Federação de Motociclismo de Portugal passou ainda por 33 rios e ribeiras, 5 barragens e albufeiras e rodou nos Parques Naturais da Ria Formosa, Vale do Guadiana, Serra de S. Mamede, Tejo Internacional, Malcata e Douro Internacional. E permitiu a visita a 7 museus (Afonso III, Marítimo, Regional do Algarve, Ruínas de Milreu, do Rio, do Queijo, CEAMA de Almeida) e 4 catedrais, incluindo a ‘sede do MC Faro’ e a Concatedral de Miranda do Douro, além de atravessar 8 fronteiras luso espanholas e passar por territórios onde se falam quatro línguas diferentes: português, mirandês, castelhano e a ‘fala de Xálima’ ou da Extremadura.

Mais do que simples curiosidades, os números espelham a grandeza de um evento que contou com o apoio dos moto clubes de Faro, Albufeira, Falcões das Muralhas (Mértola), Moura, Moto Livres (Mourão), Motards do Ocidente, GM Arronches, Conquistadores (Guimarães), MK Mákinas (Tábua), Porto, Lobos da Neve (Covilhã), Moto Galos (Barcelos), Templários (Mogadouro) e Moto Cruzeiro (Bragança). Clubes que estão na génese do Portugal de Lés-a-Lés e que foram, como sempre, alicerce imprescindível para a organização da maior maratona mototurística da Europa.

As vacas e o javali, a GNR, os romanos e o Astérix

Sempre sob intensa canícula, os participantes que fizeram rolar as mais de 2200 motos foram controlados por umas simpáticas vaquinhas, em Alcoutim, onde viram a Guarda Nacional Republicana e a Guardia Civil a juntarem esforços para apanhar contrabandistas fugidios, encontraram muitos romanos (Milreu ou Penha Garcia) e até duas completas aldeias gaulesas. Junto ao Menir do Outeiro, o Astérix, Obélix e outros personagens ‘ocidentais’ criaram a Aldeia Gaulesa do Ocidente, enquanto em Freixiosa, já no concelho de Miranda do Douro, os Conquistadores continuaram a resistir aos romanos e ao calor, homenageando a tradução das aventuras do Astérix para o mirandês no mais animado controlo deste Lés-a-Lés. Ainda assim, curiosamente, quem encontrou e caçou o verdadeiro javali, aquele que o Obélix tanto gosta, foi o MK Mákinas que durante a noite passada no controlo em Penamacor foi visitado por um porco-bravo que rapidamente virou belo petisco.

Mas houve também reis, rainhas e até bobos da corte ao longo dos 18 pontos de controlos cujas picadelas na tarjeta assinalavam o total e perfeito cumprimento do percurso, tranquilo mesmo para antigos pilotos de renome como Alexandre Laranjeira, Miguel Farrajota, Bernardo Villar ou o virtuoso dos automóveis agora convertido às duas rodas, António Rodrigues. Tudo numa caravana, longa e heterogénea, que contou com atores, políticos, cantores, cientistas, mecânicos, vendedores, presidentes, jornalistas, pedreiros, camionistas, talhantes, carpinteiros e jogadores de futebol. Como Paulo Madeira, o antigo central da Seleção Nacional e do Benfica que, no palanque final, em Bragança, reconhecia “ter sido um Lés-a-Lés bem mais duro do que os treinos com José Mourinho”. Palavras que atestam bem da exigência do evento da FMP, conhecido que é o empenho extremo exigido em todos os treinos pelo ‘Special One’.

Um Portugal de Lés-a-Lés com percurso que mereceu aplausos unânimes, mas que foi fortemente endurecido pelo calor. “A organização e os participantes foram surpreendidos por dias de calor extremo, os mais quentes do ano e isso aumentou a dificuldade para cumprir um trajeto longo no Alentejo e mais trabalhoso nas Beiras e Trás-os-Montes” sublinhou Ernesto Brochado.

Para o principal responsável pelo percurso, “o início do 2.º dia, que foi alvo de várias críticas, foi pensado para desfrutar da paisagem sem grandes paragens, mas o calor complicou as coisas”. Por isso mesmo, o elemento da Comissão de Mototurismo da FMP reforça o pedido “a todos os participantes para que guardem o ‘road-book’ e cumpram o trajeto numa Primavera fresca, verde e florida. E, aí sim, poderão apreciar na plenitude um percurso com tanto de trabalhoso como de belo. Tão exigente em termos de condução como imponente em termos de paisagens”. Em suma, um verdadeiro Portugal de Lés-a-Lés.

REPORTAGEM

Casa cheia na apresentação do Portugal de Lés-a-Lés

No ano em que regressa à quase desabitada zona raiana, garantia de uma edição sem trânsito, por paisagens muitas vezes inóspitas, de perfil quase intimista, o 24º Portugal de Lés-a-Lés reforça o estatuto de grande aventura de descoberta nacional, chegando aos mais remotos pontos do mapa lusitano e passando mesmo para lá da fronteira. Travessias que darão outro colorido e ainda mais motivos de interesse ao evento organizado pela Federação de Motociclismo de Portugal, e que viu, este domingo, desvendados muitos dos pormenores em concorrida Apresentação Oficial na Figueira da Foz.

Momento de ganhar apetite para o 'grande prato', de 9 a 12 de junho, quando cerca de 2000 mototuristas ligarão Faro a Bragança, com paragens em Castelo de Vide e Covilhã, e que antecedeu as primeiras inscrições na maratona gizada pela Comissão de Mototurismo da FMP. Altura ideal para todos os gostam de garantir um lugar na parte inicial da grande caravana, que, depois de um Passeio de Abertura de 45 quilómetros, no dia 9 de junho, entre o Centro Histórico, as praias e outros pontos históricos e paisagísticos do concelho farense, deverão cumprir longa tirada, de 460 quilómetros, até Castelo de Vide.

No Dia de Camões, de Portugal e das Comunidades Portuguesas, tempo para os verdadeiros apreciadores da natureza mas também para os mais dados à História, variando entre os muitos menires e a curiosa igreja acastelada de Terena, a visão da albufeira do Alqueva com invejável nível de água ou as marmoreiras que sustentam a força económica da região. Dia também para várias idas a Espanha, uma delas com direito a passagem pela Ponte Internacional do Marco que, ao contrário do que o nome deixa antever, é tão pequena que apenas é possível passar uma moto de cada vez. Mais desafogadas as estradas na Serra de São Mamede, rumo à "Sintra do Alentejo" onde, em Dia de Portugal, será possível visitar a recém-inaugurada Casa de Cidadania Salgueiro Maia.

Paisagens de um e outro lado da fronteira

Mas a cerimónia que juntou muitos mototuristas no Malibu Foz Hotel e que contou com os presidentes das câmaras da Figueira da Foz (Pedro Santana Lopes), de Faro (Rogério Bacalhau), de Castelo de Vide (António Pita) e do vereador da Covilhã (José Miguel Oliveira), revelou outras surpresas. Como as que serão encontradas na jornada entre Castelo de Vide e a Covilhã, longa de 300 quilómetros apesar da curta distância em linha reta entre as duas localidades. Um ziguezaguear ibérico, com motivos de interesse de um e de outro lado da fronteira, do maior menir da Península Ibérica, na freguesia de Póvoa e Meadas, à curiosa barragem fronteira de Cedillo, que só abre durante os dias da semana e que estará especialmente franqueada para os participantes do Lés-a-Lés. Regresso a Portugal por Segura depois de atravessar a não menos interessante mas muito mais imponente Ponte de Alcântara, ativa da solidez dos seus 1900 anos! Valverde del Fresno ou Navasfrias são apenas dois exemplos de localidades a atravessar antes da visita, de novo no nosso País, à nascente do rio Côa, ao Sabugal, ao Museu do Queijo de Peraboa ainda a tempo de provar as cerejas da Cova da Beira.

No terceiro dia, mais uma etapa longa, de 390 quilómetros, da Covilhã a Bragança, com regresso ao concelho de Miranda do Douro mais de duas décadas depois da última visita. Depois da passagem em Almeida, Castelo Mendo ou Mogadouro, vislumbre do Douro Internacional nos miradouros de Freixiosa, S. João das Arribas e Penha das Torres, em jornada rematada pela passagem em mais pontes romanas e outros pontos de significado histórico sempre com soberba envolvente paisagística.

Uma descrição que reforçou o entusiasmo para a edição 24 do Portugal de Lés-a-Lés, bem refletido nas centenas de inscrições efetuadas de imediato e que deverá fazer esgotar rapidamente as inscrições online (www.les-a-les.com) a partir de 21 de março.

Milhares na invasão à Capital do Motociclismo

Portugal de Lés-a-Lés arrancou em Faro

Foi a Gadir dos Fenícios, a Tartesso dos Gregos, a Ossónoba dos Romanos e é, por estes dias e uma vez mais, a Capital do Motociclismo internacional. Faro, famosa pelo seu Moto Clube e pela Concentração Motociclística que este ano comemora 40 anos de vida, acolheu os mais de 2000 motociclistas que, até domingo, participam na 24.ª edição do Portugal de Lés-a-Lés. Peregrinação mototurística organizada pela Federação de Motociclismo de Portugal que cumpriu os primeiros 56 do total de 1216 quilómetros que levará a grande e heterogénea caravana até Bragança, com passagem por Castelo de Vide de Covilhã.

Um Passeio de Abertura que animou sobremaneira um dia que contemplou ainda as Verificações Técnicas e Documentais, entrecortadas por abraços aos amigos que não se viam há mais de um ano e sempre acompanhadas por algo fresco para molhar a garganta. Que o calor, que promete tornar esta edição numa das mais escaldantes de sempre, já começou a fazer sentir-se. Tempo, porém, para uma passagem tranquila pelo centro histórico farense, com visitas (gratuitas) à Sé e sua altaneira torre, ao Museu Afonso III, ou Museu Marítimo ou ao Museu Regional do Algarve. Com a canícula a servir de motivação para a visita aos espaços museológicos, por força da frescura destes espaços, nada como aproveitar e ficar a conhecer um acervo que conta, de forma ímpar, a história de uma cidade com origens milenares.

Uma pequena tirada que mostrou um Algarve pouco conhecido da maioria, de pomares e laranjais, de noras e estufas, rumo aos vestígios romanos de Milreu. Ruínas de um passado opulento que encantaram pelos painéis de bonitos mosaicos que decoravam as villas construídas vai para dois mil anos. Bem mais conhecida é a fotogénica costa algarvia, onde abundam praias fabulosas, mesmo se poucas revelam tanto cuidado ambiental quanto a do Ancão. Onde muitos foram os motociclistas que não resistiram ao chamamento do amplo areal e de um mar que ajudou a combater os mais de 35.º que se fizeram sentir em boa parte do dia.

Campos de golfe e mais praias, lagoas e até os primeiros quilómetros em caminhos de terra batida foram outras notas de destaque num dia que, saindo da Sé Catedral, terminou na catedral do motociclismo nacional, sede do Moto Clube de Faro. Cujos sócios acolheram de forma calorosa os amigos que, no Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas, arrancam bem cedo, a partir das 6 horas e 30 rumo a Castelo de Vide. Uma verdadeira maratona de 440 quilómetros de extensão, na zona raiana e com direito a duas incursões em território espanhol, que promete ser literalmente escaldante.

Portugal de Lés-a-Lés arranca no dia mais quente do ano

Uma aventura no Alentejo escaldante

Já se adivinhava calor! Muito calor mesmo, tinham prometido os técnicos da meteorologia e as previsões só pecaram por defeito. É que o dia em que partiu a caravana do Portugal de Lés-a-Lés da veraneante região algarvia rumo à infernal zona alentejana, foi mesmo o mais quente do ano, com temperaturas que ultrapassaram os 40º centígrados. Para trás ficaram as praias e piscinas dos hotéis e complexos turísticos de Faro e, pela frente, os mais de 2000 motociclistas que aceitaram o desafio da Federação de Motociclismo de Portugal, tiveram 440 quilómetros até Castelo de Vide. Manhã bem cedo, mal o sol tinha espreitado no horizonte e já os termómetros marcavam 27º, e ainda antes das 9 horas, em Alcoutim, já ultrapassavam os 30º. E foi subindo até chegar a valores que ainda ninguém por cá tinha experimentado este ano.

Saída serena do Algarve, deixando para trás a serrania que separa o Alentejo e com Espanha sempre no horizonte para, junto ao Guadiana, aproveitar todas as curvas da bela estrada M507 rebatizada de Rita Guerra. Bela, de tons morenos e aroma mediterrânico, encantou pelas curvas e pela brisa que movia veleiros rio acima. Barreira fluvial que foi acompanhando os aventureiros rumo a Alcoutim onde contrabandistas, a portuguesa GNR e a espanhola Guardia Civil juntaram-se aos animados elementos do Moto Clube de Albufeira num divertido posto de controlo. Foi a primeira de muitas tropelias que animaram a caravana e ajudaram a combater a canícula, com muita água para beber e para molhar os pés na praia fluvial na margem da Ribeira de Cadavais.

Proibido era ficar demasiado tempo parado porque, com o relógio a avançar, também a temperatura ia subindo. Entrou-se no Alentejo o que, mesmo sem a já tradicional travessia a vau do Vascão, foi bem percetível pelas estradas menos curvilíneas ainda que sem as intermináveis retas que haveriam de surgir mais tarde. Antes disso, passagem pela islâmica Mértola e o seu altaneiro castelo onde o moto clube Falcões das Muralhas, assumiu a defesa do seu território. Não fossem os muitos espanhóis que conferem um toque internacional à longa caravana ter ideias…

Road-book em castelhano… não fosse algum espanhol perder-se

Espanhóis que foram brindados, logo de seguida, com uma estreia no Portugal de Lés-a-Lés. Se é verdade que, em várias ocasiões, foi a trupe até ao lado de lá da fronteira, não menos verdade é que nunca antes houve notas do road-book escritas em castelhano. Saltos para lá e para cá quase sem dar conta das linhas que outrora eram momento de tensão ibérica. Agora, sem grande espaço nas malas das motos para caramelos, bacalhau ou outro contrabando, a passagem só era notória porque havia avisos… no road-book. De resto, apenas pequenos marcos em pedra, um posto fronteiriço em ruínas ou uma Ponte Internacional (do Marco ou El Marco) em madeira e onde cabe apenas uma moto de cada vez. E automóveis, nem pensar!

Sempre com uma canícula que quase derreteu até os mais veteranos, a aldeia de Safara, bem no coração do concelho de Moura, permitiu saborear os deliciosos enchidos da região. E se pensam que foi uma má opção, lembrem-se que o sal ajuda a minorar os efeitos da desidratação causados pelas altas temperaturas e pelo vento quente que ia secando os corpos. Que o diga o ator Vítor Norte, experiente de muitas Lés-a-Lés sempre com a sua inseparável Gina, a não menos experiente Yamaha Virago 535 que há muito o acompanha. “Foi um dia duro, muito duro, ao nível das mais exigentes jornadas de gravação de um filme ou de uma telenovela”, contou em castelo de Vide o taxista Manel Martins da novela ‘Festa é Festa’.

Sem festa, a passagem pela Amareleja proporcionou o que era esperado! No ponto continental onde são registadas as maiores temperaturas, lá estavam os termómetros para cima dos 40º, abrindo o apetite para a muita água que o Moto Livres Club e a autarquia local disponibilizaram no castelo de Mourão. Com uma vista fabulosa, tempo para apreciar o grande lago do Alqueva que represa o Guadiana e seus afluentes, antes de mais descobertas de um Alentejo que não para de surpreender. Seja no fotogénico monumento de Homenagem ao Cante Alentejano, como nos diversos menires, antes e cromeleques que atestam a existência de civilizações bem antigas na região.

Ainda assim, nada que preparasse os participantes no maior evento mototurístico da Europa para descoberta da Aldeia Gaulesa do Ocidente, bem perto do menir do Outeiro que, com 5,6 metros de altura é o segundo mais imponente de Portugal. Cenário perfeito para um Obélix carregador de menires, o Astérix, o Panoramix, o Ordemalfabétix, a Sr.ª Decanonix e até a bela Falbala, personagens interpretados na perfeição pelos elementos dos Motards do Ocidente. Tempo também para o primeiro troço de terra batida (estas aldeias são mesmo muito antigas…) onde a Jawa 250 de 1952, conduzida por Hélder Alves, ou as muitas Honda PCX 125 não tiveram qualquer problema. Afinal o Portugal de Lés-a-Lés é uma aventura para todas as motos, que não para todos os motociclistas…

O peso da História no Dia de Portugal

No Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas, tempo para recordar mais alguns pontos de grande peso histórico na afirmação da independência lusitana, incluindo os castelos de Terena (à distância) ou de Vila Viçosa (por dentro) antes de nova paragem em Borba junto à Fonte das Bicas eu desde 1781 mata a sede a quem por ali passa. Barbacena e Arronches foram pontos do mapa visitados antes de nova entrada em Espanha, que deixou italianos, franceses, suíços, neerlandeses, polacos, romenos, alemães, luxemburgueses, croatas, belgas, estado-unidenses e húngaros mais baralhados. O arrevesado espanholês ou o lírico portunhol utilizado nas notas de navegação aumentou a dificuldade de perceção na mesma medida que exponenciou a diversão para os ibéricos. Que, cansados, mas bem-dispostos, chegaram, todos, a Castelo de Vide, final de uma etapa de 440 quilómetros que será recordada como uma das mais exigentes dos 24 anos de história do Portugal de Lés-a-Lés.

Tal como deverá ficar recordada a ligação entre a Sintra do Alentejo e a Covilhã, com 360 quilómetros de descobertas e emoções, de sabores e paisagens. E muito calor!...

Portugal de Lés-a-Lés continua a bater recordes… de temperatura

Calor marcou viagem até ao covil dos Lobos

A caravana estava avisada. Depois das temperaturas elevadas no primeiro dia, o calor voltou em força na segunda etapa do Portugal de Lés-a-Lés. Entre Castelo de Vide e a Covilhã, 360 quilómetros de estradas fabulosas, paisagens imponentes, e descobertas de cortar o fôlego. Ou a falta de ar seria do calor?... Afinal ainda não eram 10 horas e já os termómetros marcavam mais de 40º centígrados. E haveriam de chegar perto dos 45º em alguns locais, obrigando os participantes a beber muitos milhares de litros de água e procurar umas sombras ou praias fluviais para evitar o sobreaquecimento das máquinas… humanas. Porque as outras, as mecânicas, parecem bem mais habituadas às extremas exigências térmicas.

As estratégias para evitar o calor foram muitas, mas uma das mais utilizadas foi mesmo a partida madrugadora desde Castelo de Vide, aproveitando as temperaturas mais amenas para descobrir as pitorescas estradas desertas até ao mais antigo menir do Mundo. A datação do menir da Meada aponta para um trabalho humano com mais de 7000 anos ao criar aquele que é o monólito pré-histórico mais alto da Península Ibérica. Afinal este monumento megalítico soma os 4 metros que revela acima do solo aos mais de 3,5 metros que esconde debaixo da terra. Números imponentes, é certo, mas que não travaram a caravana por mais tempo do que o necessário para uma foto e a picadela na tarjeta que assegura o cumprimento de todo o percurso elaborado pela Comissão de Mototurismo da Federação de Motociclismo de Portugal.

Espanha foi o destino seguinte, com entrada pela curiosa barragem de Cedillo que tem a particularidade de represar dois rios fazendo aproveitamento hidroelétrico de forma separada. Estradas de excelente piso e curvas largas, bem desenhadas, ‘devolveram’ a heterogénea caravana a Portugal, não sem antes ter direito a um ‘cheirinho’ da histórica cidade de Alcântara e da não menos monumental ponte que, há cerca de 2000 anos, garante o trânsito fronteiriço. Com o calor a intensificar-se, passando muito cedo dos 40º centígrados, nada como atentar nos mais experientes motociclistas.

Luís Simão é um dos quatro participantes totalistas e tem a curiosidade de ter cumprido as 24 edições com a mesma Yamaha Virago 535 e, imagine-se, com o mesmo blusão, bem grosso, de couro. “É a melhor arma contra o calor, evitando a desidratação e as queimaduras da pele além de garantir a segurança em todas as situações”. Ainda assim o experiente motociclista garante que “mesmo tendo sido um dia muito quente, já houve outras edições com temperaturas mais elevadas e um grau de exigência física bem superior”.

Da fria Suíça ao escaldante Portugal

Calor que não impediu a diversão e prazer de condução de dois Carlos Manuel, o Carvalho e o Ferreira, emigrados há décadas na Suíça e que, nos últimos cinco anos, marcam uns dias de férias para rumar ao ‘seu’ Portugal… de Lés-a-Lés. Bom, na verdade, o de apelido Carvalho esteve ausente em 2021, porque “a data coincidiu com a festa de 25 anos de casamento e não era boa ideia sair de casa nesse dia. Não fosse ter que juntar a festa do divórcio!”. Muito divertidos, agradados com as estradas e a animação que os surpreende a cada ano, ficaram espantados com a produção ‘hollywodesca’ preparada pelos Conquistadores de Guimarães em Penha Garcia. Aumento exponencial da população da aldeia famosa pelos vestígios de ocupação milenar e pela imponente posição estratégica, garantido pelos 28 ‘romanos’ que os elementos do moto clube vimaranense interpretaram na perfeição. E onde não faltaram legionários, centuriões, legados, senadores e até mesmo dois… crucificados, que iam picando as tarjetas frente a um cenário geológico criado desde há mais de 4 milhões de anos.

Imagem apaixonante para qualquer geólogo capaz de catalogar as paredes de xisto, como deliciosa, para toda a caravana, foi a sensação aromática das searas recentemente ceifadas, de avaliação bem menos erudita. Como entusiasmante também foi a passagem por Idanha-a-Velha onde a Honda tratou de matar a sede à caravana, antes mesmo de passagem pela pitoresca aldeia de João Pires. Emoções de descoberta ‘amadurecidas’ no aprazível parque de campismo do Freixial, nas margens do rio Bazágueda, com descanso nas tão desejadas sombras no relvado.

A história da rainha, do bobo e da cozinheira premiada

Mas haveria muito mais antes da chegada à Covilhã onde o dinâmico Moto Clube Lobos da Neve preparou uma receção digna de reis. Do chuveiro que ia refrescando a caravana antes de subir ao palanque de chegada ao saboroso Bacalhau à Assis servido ao jantar. Um prato com história única na cidade serrana, que mete um cozinheiro chinês no meio de um grande nevão, e que foi preparado por Patrícia Santos, ‘chef’ ganhador do master Chef em 2010. Comida deliciosa acompanhada por um concerto ao vivo, animando o amplo espaço onde ficou instalado o serviço de assistência mecânica e de recuperação física. A cargo de jovens, mas bem experientes, osteopatas, naturopatas e massoterapeutas que iam minimizando os efeitos de maleitas acabadinhas de arranjar ou algumas mais antigas, carinhosamente ‘trazidas de casa’.

Antes, porém, tempo para uma visita ao mais importante apoio estrangeiro do Lés-a-Lés, com ida às instalações da Motoval em Vilaverde del Fresno. Mas também para incursões mais radicais em caminhos de terra, para a descoberta do célebre forcão das capeias arraianas e até a possibilidade de conhecer a nascente do Rio Côa. Sem esquecer, claro, novo momento histórico protagonizado junto ao castelo de Sabugal, por uma elegante e poderosa rainha e o seu bobo da corte. Dos verdadeiros.

Momentos de diversão que ajudaram a descontrair num dia escaldante, em jeito de preparação para a ‘etapa-rainha’ do 24.º Portugal de Lés-a-Lés, da Covilhã até Bragança. E que, apesar de uma quilometragem semelhante, terá muitos mais horas de condução, com um entusiasmante, mas muito exigente, rendilhado de estradas e estradinhas.

Terminou em festa o Portugal Lés-a-Lés mais exigente dos últimos anos

O genuíno espírito reencontrado numa pequena aldeia transmontana

Num Portugal de Lés-a-Lés marcado por um calor abrasador, atravessando um percurso bem trabalhoso ao longo da zona raiana nos dias mais quentes do ano, os cerca de 2400 participantes precisaram esperar pelos últimos dos 1216 quilómetros do percurso para viver um momento do mais genuíno espírito do evento que a Federação de Motociclismo de Portugal organiza desde 1999. Gigantesca surpresa que transformou a pequena aldeia de Freixiosa, do concelho de Miranda do Douro, no verdadeiro epicentro do universo motociclístico. Os 47 habitantes viram a sua pequena aldeia invadida pelos elementos de um dos mais ativos e criativos clubes que acompanha a Comissão de Mototurismo na FMP, os Conquistadores, de Guimarães, que deram um toque único à povoação, ajudando os mototuristas a esquecer as agruras do calor.

Temperaturas altas que foram companhia constante desde Faro, tornando a edição de 2022 numa das mais duras de sempre (lado a lado com a não menos escaldante 2017 ou a chuvosa 2010), mas que, na última etapa, entre a Covilhã e Bragança deram algumas tréguas. O dia até começou agradável para a ‘prática da modalidade’, com a frescura matinal a ajudar a apreciar tranquilamente as paisagens bucólicas nas faldas do mais alto maciço montanhoso do continente. Tranquilidade que, apesar de todo o cuidado dos mototuristas, não impediu o despertar de curiosidade nas pequenas aldeias atravessadas, com o assomar às portas e janelas de rostos estremunhados pela inusitada agitação. Estradas e estradinhas, variando entre as mais rápidas e outras cheiinhas de prazenteiras curvas, permitindo agradável arredondar dos pneus até Castelo Mendo onde o primeiro controlo do dia fazia companhia ao mais alto pelourinho de Portugal, honrado com a presença da ‘realeza’ do Moto Clube do Porto.

Momento histórico seguido de uma não menos impressionante visita à monumental fortaleza de Almeida, famosa pelas casas com telhados de pedra à prova de bomba, onde marcou presença a NEXX. Que, além da assistência necessária aos capacetes fabricados na Anadia e da indispensável água, propunha um jogo simples e cujo prémio era uma t-shirt exclusiva da marca. Mas as t-shirts voltaram quase todas para casa, tão fraca era a pontaria dos participantes que não conseguiam atirar ao chão umas simples latinhas com as bolas de ténis.

Prazeres escaldantes Portugal acima

Seguiu a longa e heterogénea caravana para norte, rumo ao Parque Natural do Douro Internacional, não sem antes vislumbrar a serra da Marofa, de atravessar o Rio Águeda e abeirar o Douro em Barca de Alva. Pelo caminho tempo para desfrutar da estrada nacional 221, rebatizada de ‘Simone de Oliveira’, por força das semelhanças com a cantora e atriz. Nostálgica, indestrutível e bela, oferecedora de uma elegância única a curvar, que teria como recompensa o café, os pastéis de nata e as águas frescas no Oásis BMW-Antero, a poucos metros de mais uma fronteira luso-espanhola.

Curvas, muitas curvas, que foram palco momentos de grande prazer de condução para os mais experientes como para os novatos, até nova paragem, em Mogadouro. Onde o estreante Alcides Queirós só lamentava “ter desperdiçado, durante 23 anos, a possibilidade de descobrir Portugal de uma forma única”. Com um sorriso jovial e um entusiasmo que disfarçava os 63 anos de idade, exibia orgulhosamente a bandeira da freguesia de Carregosa, Oliveira de Azeméis, enquanto contava a sua história.

“Uns amigos lançaram o desafio e, assim que a vida pessoal e profissional permitiu, fiz a inscrição e lá fui até Faro. Foi o cumprir de um sonho de longa data. Sozinho, e sem ninguém conhecido, coloquei uma questão a uns participantes que estavam por lá e acabei a fazer o percurso com os ‘cinco violinos’, os meus novos amigos. E, para que fique registado, todo o percurso foi cumprido na íntegra e ao minuto, com a Honda 700 Deauville que tem três ou quatro vezes o meu peso…” Mais uma prova de que o Lés-a-Lés é para todas as motos, mas não é para todos os motociclistas!

Amores e tradições que teimam em resistir ao tempo

Em Mogadouro, no preciso local onde arrancou a edição de 2011, a paragem deu para recordar as sensações da estrada ‘Helena Costa’, o troço da N221 até Freixo de Espada à Cinta, curvilínea, elegante e resistente como a atriz que conta no seu ’palmarés’ com os dois Lés-a-Lés mais escaldantes: o de 2017 e de 2022. E que, tal como todos os motociclistas, teve que fazer opções na parte final do percurso, entre as visitas aos miradouros de Picões, Freixiosa e São João de Arribas. Além da imperdível e obrigatória passagem pela espetacular sede do Moto Clube Abutres do Asfalto, na recuperada estação ferroviária de Sendim, onde não faltaram as Pauliteiras de Sendim (sim Pauliteiras!, meninas).

Já os mais conhecidos Pauliteiros de Miranda estavam em força na aldeia da Freixiosa, onde teve lugar uma das mais espetaculares demonstrações de dinamismo e carinho regional de que há memória em mais de duas décadas de Lés-a-Lés. Depois de, na véspera, os Conquistadores de Guimarães terem feito ‘estragos’ em Penha Garcia, ‘voltaram à carga’ com cerca de meia centena de figurantes na mais pequena aldeia da Freguesia de Vila Chã de Braciosa. Onde Dalila Valentim, a ‘filha querida’ que a todos os habitantes da Freixiosa acode, indo muito além das funções de tesoureira da junta não se poupou a esforços para criar um momento inolvidável. Apaixonada pela sua aldeia natal, não esqueceu o berço mesmo depois de passagens da vida por França, Porto e Lisboa. “Há 3 anos surgiu a oportunidade de voltar e logo foi aceite sem hesitar. Daí para cá, todo o trabalho é feito em prol da população, de média etária muito, mas mesmo muito, elevada”. E aqueles que são o casal mais jovem da terra, pais da mais nova habitante da aldeia, Matilde, de 10 anos, tudo fizeram nas últimas semanas para reunir as condições para uma grande festa.

“O desafio lançado pela presidente da autarquia de Miranda do Douro, Dr.ª Helena Barril, foi levado muito a sério, motivando toda a população e artesãos de Freixiosa e Fonte da Aldeia, num evento que será, seguramente, recordado por muitos anos”. Isto é, afinal, a essência do Portugal de Lés-a-Lés, criado em 1999 por força do entusiasmo de cinco motos clubes (Porto, Estarreja, Mototurismo do Centro, Motards do Ocidente e Lisboa). Descobrir a essência de Portugal, as suas paisagens e gentes, as suas estradas e artesanato, como as navalhas de Palaçoulo, as gaitas de foles e castanholas, as peças criadas a partir do burel.

Daí até ao epílogo, em Bragança, a passagem por Miranda do Douro ajudou a perceber a importância do mirandês, a 2.ª língua oficial de Portugal, bem patente na toponímia das terras atravessadas. Bem como o valor dos burros de Miranda, raça que esteve quase extinta e foi recuperada por algumas associações como o Parque Ibérico de Natureza e Aventura de Vimioso onde estava um dos últimos dos 18 controlos que atestavam o cumprimento total do percurso gizado pela Comissão de Mototurismo da FMP.

E, claro, Lés-a-Lés sem caminhos terra não é aventura que se preze. Por isso, ainda antes da chegada a Bragança, tempo para um desvio com direito a passagem pela ponte visigótica sobre o rio Maçãs, construída no século XIV. Sólida como a maior aventura mototurística da Europa e, quiçá, do Mundo. Com novo episódio já marcado para 2024. E com a particularidade de celebrar as bodas de prata.

Por falar em festa, momento alto desta edição foi um insólito pedido de casamento em pleno palanque de chegada do habitué dos moto-ralis João Correia à sua companheira de sempre, Rita Martins. Que disse que sim!

 
6º Portugal de Lés-a-Lés Offroad (2021)
Montalegre - Covilhã - Borba - Lagoa
De 1 a 4 de Outubro de 2021

O mapa do sucesso em todo-o-terreno

Por serras e vales, planícies sem fim, atravessando rios e as mais recônditas povoações do verdadeiro País profundo, o 6.º Portugal de Lés-a-Lés reforçou o epíteto da grande aventura nacional em fora-de-estrada. Atravessar o mapa nacional, do extremo norte, bem junto à fronteira com Espanha, até às praias algarvias, foi desafio cumprido com enorme prazer, muita diversão e camaradagem ao longo de mais de 1000 quilómetros, entre Montalegre e Lagoa. Pelo meio, Covilhã e Borba, tendo esta cidade do distrito de Évora servido de ponto de partida para a derradeira etapa, com 360 km alternando entre os mais rápidos estradões e as zonas mais técnicas, do rendilhado criado pela albufeira do Alqueva aos sinuosos estradões da serra de Silves, já na ponta final do evento organizado pela Federação de Motociclismo de Portugal.

REPORTAGEM

Calorosa receção aos participantes no Portugal Lés-a-Lés Off-Road sem bruxarias mas com bom fumeiro

Montalegre dá a partida para a aventura

Uma lista de participantes bem recheada – que esgotaram as inscrições em poucos dias… – levou enorme animação a Montalegre, ponto de partida da 6.ª edição do Portugal de Lés-a-Lés Off-Road. A travessia do mapa nacional através de estradões, caminhos, veredas e trilhos vai começar na terra do bom fumeiro e das famosas noites de bruxaria, rumo à Covilhã, destino depois de 326 quilómetros de subidas e descidas num promissor carrossel serrano. Variedade de pisos é a promessa da organização, que traçou um percurso para todo o tipo de motos e onde as ‘maxi-trail’ estarão particularmente à vontade.

O entusiasmo gerado em redor do evento levado a cabo pela Federação de Motociclismo de Portugal atraiu centenas de motociclistas ávidos de aventura e descoberta, não só portugueses como muitos estrangeiros. Do grande contingente espanhol aos vários ingleses, passando por motociclistas oriundos de França, Bélgica, Alemanha ou Suíça. Caravana internacional que se prepara para ir até Lagoa, depois da paragem também em Borba, no final da segunda etapa, em percursos fora-de-estrada. Ocasião ímpar para apreciar as mudanças da paisagem lusitana, das agrestes Terras de Barroso às veraneantes praias algarvias, passando pela Serra da Estrela e as inevitáveis planícies alentejanas.

Quase mil quilómetros para cumprir em ritmo de diversão, por motos de todas as cilindradas, das grandes BMW R1200 GS ou KTM Adventure 1290 às pequenas AJP, Macal ou Zundapp, todas de 50 cc, passando pelo grande pelotão de Yamaha Teneré 700 e Honda CRF1100 Africa Twin bem como muitas ligeiras máquinas enduristas. E com condutores de todos os níveis, incluindo os reformados dakarianos, António Lopes, Bernardo Villar, Miguel Farrajota ou Rodrigo Amaral. Que, apostados apenas em divertir-se com os amigos, continuarão seguramente a mostrar capacidades de condução muito acima da média tantos nos belíssimos estradões como em algumas passagens mais técnicas ao longo das três etapas.

Percurso exigente de Montalegre à Covilhã criou sorrisos de Lés-a-Lés

Estrela brilhante a fechar dia de sobe e desce

Sorrisos empoeirados mas brilhantes na chegada à Covilhã marcaram o final da 1.ª etapa do 6.º Portugal de Lés-a-Lés Off-Road, depois de 326 quilómetros muito exigentes desde Montalegre. Um dia pleno de sobe e desce, deixando para trás as serranias do Barroso rumo à Serra da Estrela, que apelou à capacidade técnica e física dos participantes, exponenciando o caráter aventureiro do evento organizado pela Federação de Motociclismo de Portugal.

Jornada de contrastes que começou com o nevoeiro e alguma chuva miudinha a encobrir a espetacularidade da travessia transmontana até Vila Real para, na passagem pela antiga linha de comboio do Corgo até à Régua, surgir o sol que haveria de acompanhar a caravana até final da jornada.

Morrinha matinal que teve o condão de aplacar o previsível pó, facilitando a transposição de duas subidas mais íngremes logo nos quilómetros iniciais, forma de aquecer os músculos antes da passagem pela albufeira criada no rio Rabagão pela barragem de Pisões. Com muito menos água que o esperado foi, ainda assim, ponto marcante na tirada, tal como na memória ficará o ar místico conferido pelo nevoeiro em algumas zonas onde sobrevivem castanheiros, carvalhos e outras árvores seculares. ‘Perdeu-se’ o vale da Samardã ‘ganhou-se’ a paisagem do Alto Douro Vinhateiro que a UNESCO nomeou Património da Humanidade, rumo à Régua onde os amadores do Lés-a-Lés se cruzaram com os ‘prós’ na prova do Campeonato Nacional de Enduro

Claro que, porque a tradição é para ser mantida, não faltaram algumas zonas de maior dificuldade nas escarpas durienses, obrigando a trabalhos forçados e muito concentração para passar pelos trilhos mais técnicos. Local onde, contrariando todas as expetativas, as afoitas Vespa’s ou até uma pequeníssima Brixton passaram sem problemas, ao contrário de motos de outro gabarito.

Exigências técnicas e físicas que vão continuar na 2.ª etapa, entre a Covilhã e Borba, com 307 quilómetros e passagens bem contrastantes nas paisagens dos eucaliptais do centro do País e a beleza do Parque Natural da Serra de São Mamede.

Alerta amarelo transformado em sol e muito diversão entre a Covilhã e Borba

Lés-a-Lés Off Road com um brilho especial

As previsões não podiam estar mais erradas. Felizmente! Do mau tempo anunciado, com ventos fortes e muita chuva ao longo de todo o dia, levando mesmo as autoridades a decretarem alerta amarelo para vários distritos, saiu uma jornada espetacular para a prática da modalidade, com céu completamente limpo, sol brilhante e temperaturas amenas. Meteorologia que ajudou a criar um dia fantástico para os mais de 400 motociclistas que cumpriram a 2.ª etapa do 6.º Portugal de Lés-a-Lés Off Road, entre a Covilhã e Borba. Foram 306 quilómetros de pisos e paisagens bem variadas, numa jornada que começou cedo, com a partida de um local que mais parecia um ‘bivouac’ do Rali Dakar. Gentileza do Moto Clube da Covilhã – Lobos da Neve que, na véspera, até providenciaram uma bem-agradecida estação de lavagem e um parque fechado (e seguro) para as motos!

Saída da Beira Baixa rumo ao Alentejo, através de Tortosendo e Fundão, com passagem pelas rápidas pistas que ladeiam as eólicas no cume da serra da Gardunha. Troços onde só a magnitude da paisagem ia refreando a vontade de acelerar e que logo deram lugar a mais intrincados caminhos por entre os pinhais e eucaliptais. E se, na primeira parte da etapa, a chuva caída durante a madrugada anulou por completo o pó, já entre Oleiros e Proença-a-Nova foi presença indesejada, numa região onde são ainda visíveis as feridas abertas pelos violentos incêndios de 2020. Valeu a paragem no agradável Camping de Oleiros, onde o Oásis Honda serviu fruta fresca e água para limpar a garganta e, claro, um café para ajudar a espevitar. Que o dia ainda estava no início…

À medida que a longa caravana ia rumando a sul, era notória a mudança da paisagem, mas também dos caminhos percorridos. Depois de Vila Velha do Rodão começou a surgir o inconfundível aroma a Alentejo, numa variação sensorial que a Comissão de Mototurismo da Federação de Motociclismo de Portugal sempre procura oferecer nas travessias do País, seja em estrada seja nesta versão, em todo-o-terreno.

O que, naturalmente, conquistou os portugueses e vem atraindo cada vez mais estrangeiros. Como os belgas Jona Moriau, Olivier Scheen e Michael de Fazio que descobriram o Lés-a-Lés em conversa com um amigo que trabalha na Dunlop, parceiro da FMP ao longo dos últimos anos. Pilotos experientes de Resistência (Moriau é presença assídua em provas de 4 e 8 horas a nível europeu) e Supermoto (Scheen foi vice-campeão europeu da classe S3 em 2008) trouxeram uma estrutura de luxo. Os papás Jean Paul e Jean Michel, reformados e amantes do turismo, da descoberta das paisagens, da gastronomia e da vitivinicultura, vieram a conduzir um grande furgão desde Stavelot, no sudeste da Bélgica, bem perto de Francorchamps e do mítico circuito de Spa. Trouxeram as motos, ferramentas e equipamentos enquanto os seus ‘pilotos’ viajaram de avião depois de cumprida a semana de trabalho. Todos se divertem à grande e os mais experientes, encantados com a descoberta do nosso País, garantiram já que vêm fazer o Portugal de Lés-a-Lés na versão estradista.

Mas, primeiro, esta equipa de assistência tem que chegar a Lagoa, fazendo sensivelmente os mesmos 360 km que os participantes vão cumprir na 3.ª e última etapa, antes de arrumar as motos, levar os ‘meninos’ ao aeroporto de Faro e fazerem-se à estrada, atravessando grande parte da Europa até à sua Bélgica natal. "Bon voyage et au revoir".

Centenas de portugueses e estrangeiros rendidos aos encantos do Portugal mais profundo

Num dia abençoado por São Pedro (mais um!) com sol e temperaturas amenas, a facilitar imenso a vida aos participantes e permitir desfrutar das magníficas paisagens, tempo para conhecer bem de perto a realidade agrícola lusitana, atravessando áreas enormes de cultura intensiva e super intensiva, com milhares de hectares de olival e amendoal, mas também de diversas árvores de fruto, vinha ou cereais. Zona do País onde a condução em fora de estrada é, por norma, mais descontraída e divertida, mas onde as pequenas ‘cinquentinhas’ sofreram com as longas retas feitas de ‘gás a fundo’. O Casimiro, o Cardoso, o Né, o Patrício, o Nuno, o Neves e o Pereira, rapaziada da Charneca da Caparica com uma média de idades bem para lá dos 50 anos, deixaram em casa as motos grandes e voltaram a viver as aventuras de juventude, divertindo-se a valer com as Macal Trail II, Famel Zundapp, Sachs Cross, Suzuki TS ou a AJP Galp. Boa disposição alimentada por algumas picardias que foi nota dominante ao longo de três dias bem aproveitados para conduzir «máquinas recuperadas e mantidas por cada um dos condutores, e cujas reparações, mesmo na estrada, são feitas com materiais e ferramentas que cada um transporta». E assim, a cada passo, lá iam parando os ‘Comdores’ (sim, é assim mesmo, com M, que o grupo se intitula, apesar de ter como símbolo um abutre com feridas e de muletas…) sem que se conseguisse perceber se era realmente uma pequena avaria ou uma desculpa para mais ‘duas de conversa’.

Este é, afinal o espírito do Lés-a-Lés, seja na versão estradista ou na mais aventureira Off-Road, filosofia que cativou os muitos estrangeiros entre os mais de 400 participantes. Oriundos da Bélgica, Irlanda, Espanha, França, Inglaterra, Alemanha, Itália ou do Brasil. Neste caso com a particularidade de conduzir uma belíssima Yamaha XT 500 de 1977 (mas com depósito pintado em preto vermelho e alumínio da versão de 1981!) de matrícula francesa e, para aumentar a improbabilidade, vivendo na cidade de Salamanca. Bruno Pavão, assim se chama este motociclista nascido em Porto Alegre, soube do Lés-a-Lés através de uma revista espanhola e, como nenhum amigo o acompanhou, veio sozinho desde casa, a rolar por estradas nacionais. Foi a estreia absoluta no todo-o-terreno e já garantiu o regresso em 2022, «com um amigo italiano que também tem uma XT 500 que ficou encantado com a ideia».

No final, em Lagoa, os sorrisos do brasileiro eram acompanhados pela boa disposição generalizada de quem acabava de cumprir três dias de aventura, de descoberta e de diversão. De Terras do Barroso à serra algarvia, da Estrela às planícies alentejanas, das escarpas sobre o rio Corgo ao espelho de água do Alqueva, dos pinhais de Oleiros às praias de Lagoa. Porque desta diversidade se faz Portugal e nesta descoberta assenta o sucesso do Lés-a-Lés.